A Rússia atravessa uma combinação incomum no mercado de trabalho: as empresas relatam falta de trabalhadores, enquanto profissionais experientes enfrentam dificuldades crescentes para encontrar vagas compatíveis com sua formação. O fenômeno atinge principalmente setores como tecnologia, marketing, publicidade e relações públicas.
Segundo reportagem publicada pelo The Moscow Times, a taxa oficial de desemprego russa permanece em nível historicamente baixo, enquanto aumentou a quantidade de trabalhadores qualificados que deixam de atuar em suas áreas e passam a ocupar empregos como entregadores, motoristas e funcionários de armazéns.
Em agosto, o número de vagas anunciadas na HeadHunter, principal plataforma de recrutamento da Rússia, caiu 13% em relação ao ano anterior. Ao mesmo tempo, o número de currículos ativos aumentou 25%, levando a concorrência entre candidatos ao maior nível em oito anos.

O quadro ocorre em uma economia que enfrenta uma escassez estrutural de trabalhadores. A guerra na Ucrânia, a mobilização militar, as mortes no campo de batalha e a emigração reduziram a população disponível para o mercado de trabalho. Uma análise publicada anteriormente pela A Referência mostrou que a Rússia perdeu trabalhadores em idade ativa justamente quando empresas passaram a disputar uma força de trabalho cada vez menor.
A escassez, porém, não significa que todos os profissionais tenham facilidade para encontrar emprego. Os dados citados pelo The Moscow Times mostram que a demanda está concentrada principalmente em funções operacionais. Empresas procuram caixas, vendedores, funcionários de armazém, carregadores, cozinheiros, padeiros, mecânicos, operadores de máquinas e eletricistas.
Também há falta de médicos, especialmente em hospitais e clínicas regionais. Algumas vagas oferecem salários-base de cerca de 18 mil rublos, aproximadamente R$ 1,1 mil.
Ao mesmo tempo, profissionais com anos de experiência relatam dificuldades para sequer chegar à etapa de entrevista. Em alguns casos, processos seletivos recebem centenas de candidaturas em poucos minutos e são encerrados rapidamente.
A inteligência artificial também passou a alterar o perfil das vagas. Empresas procuram profissionais capazes de desempenhar funções que antes eram distribuídas entre diferentes trabalhadores, combinando produção de textos, edição de vídeos, design, publicidade, análise de dados e outras atividades com o uso de ferramentas de IA.
A consequência é uma redução do número de vagas destinadas a especialistas altamente qualificados, enquanto cresce a procura por trabalhadores capazes de executar tarefas específicas por salários menores.
O setor de tecnologia é um dos exemplos mais visíveis. Depois da saída de empresas e profissionais de TI da Rússia em 2022 e 2023, desenvolvedores de software passaram a ser muito procurados. Parte dos projetos criados naquele período, porém, perdeu força ou foi encerrada, reduzindo a demanda por profissionais especializados.
A mudança também ocorre em um ambiente de maior dependência do Estado e de empresas estatais. A Referência já mostrou que a economia russa passou a depender cada vez mais de fornecedores de Beijing para tecnologias sujeitas a sanções internacionais, em um processo que reduziu as alternativas disponíveis para empresas russas.
A escassez de trabalhadores também levou Moscou a buscar mão de obra estrangeira. Em 2024, cerca de 15 mil trabalhadores norte-coreanos foram enviados à Rússia, segundo informações citadas pela A Referência. O movimento ocorre em meio à falta de trabalhadores provocada pela guerra, pela emigração e pelas perdas demográficas.
Para os trabalhadores russos que não encontram vagas em suas áreas, uma das alternativas é aceitar empregos que exigem menos qualificação formal. Um programador pode passar a trabalhar como entregador; um profissional de marketing pode buscar ocupações em armazéns ou no comércio.
Essas pessoas deixam de aparecer nas estatísticas como desempregadas porque continuam trabalhando. O problema passa a ser a perda de utilização de suas qualificações.
O fenômeno também afeta a formação de mão de obra especializada. Profissionais que permanecem durante meses ou anos fora de suas áreas podem perder conhecimentos e experiência, especialmente em setores de rápida transformação tecnológica.
A situação combina, portanto, dois mercados de trabalho diferentes. De um lado, empresas encontram dificuldades para preencher funções operacionais e técnicas específicas. De outro, trabalhadores altamente qualificados encontram menos oportunidades para utilizar sua experiência.
Os dados citados pelo The Moscow Times mostram que a escassez de mão de obra não significa uma escassez generalizada de empregos para todos os profissionais. A demanda está concentrada em determinadas atividades, enquanto parte da força de trabalho qualificada enfrenta uma redução das oportunidades em suas próprias áreas.
O resultado é uma mudança na composição do mercado de trabalho russo: trabalhadores permanecem empregados, mas uma parcela deles passa a atuar em funções abaixo de sua formação e experiência.