Fé sob suspeita: escândalo de corrupção atinge o Templo de Ram e pressiona Modi

Denúncias de desvio de milhões em doações de fiéis provocam prisões, renúncias e ampliam a pressão política sobre o BJP no estado mais populoso do país

O escândalo de corrupção no Templo de Ram colocou o governo do primeiro-ministro Narendra Modi no centro de uma nova crise política na Índia. Acusações de desvio de milhões em doações feitas por fiéis desencadearam investigações policiais, prisões e renúncias de dirigentes da instituição responsável pela administração do templo, localizado em Ayodhya, no estado de Uttar Pradesh. As informações são da Al Jazeera.

O caso ganha ainda mais relevância porque ocorre poucos meses antes das eleições estaduais em Uttar Pradesh, o estado mais populoso do país e considerado estratégico para o Partido Bharatiya Janata (BJP), legenda de Modi.

Templo de Ram (Foto: WikiCommons)
Símbolo político e religioso

O Templo de Ram foi inaugurado em janeiro de 2024 após décadas de disputas religiosas e judiciais. O santuário foi construído no terreno onde ficava a histórica Mesquita Babri, demolida por extremistas hindus em 1992, episódio que desencadeou confrontos religiosos e deixou quase 2.000 mortos em toda a Índia.

Para milhões de hindus, Ayodhya é considerada o local de nascimento do deus Ram. Por isso, o templo tornou-se um dos principais destinos de peregrinação do país e um dos maiores símbolos do nacionalismo hindu defendido pelo BJP.

Nos últimos dois anos, milhões de devotos visitaram o complexo religioso e realizaram doações em dinheiro, joias, ouro, prata e outros objetos de valor.

Denúncias apontam desvio de doações

As suspeitas surgiram após denúncias feitas por um ex-supervisor da equipe de contabilidade da fundação Shri Ram Janmabhoomi Teerth Kshetra Trust, responsável pela administração do templo.

Segundo as acusações, parte das doações dos fiéis teria sido desviada por pessoas ligadas à gestão da instituição.

A repercussão levou o governo estadual a criar uma comissão de investigação. Embora o relatório produzido não tenha sido divulgado publicamente, a polícia abriu um processo criminal e prendeu pelo menos oito pessoas envolvidas na contagem das doações e no recebimento dos bens oferecidos pelos visitantes.

Além disso, diversos devotos procuraram as autoridades para cobrar informações sobre o paradeiro de joias, barras de prata e outros objetos entregues ao templo.

Renúncias aumentam pressão

Em meio ao avanço das investigações, o secretário-geral da fundação, Champat Rai, renunciou ao cargo juntamente com outros integrantes da direção.

A saída de Rai teve forte impacto político, já que ele era considerado uma das principais lideranças do movimento responsável pela construção do Templo de Ram.

Apesar das renúncias, a indignação entre os fiéis continua elevada. Muitos acusam a administração de trair a confiança dos milhões de hindus que contribuíram financeiramente para o templo.

Oposição vê desgaste para Modi

O líder oposicionista Akhilesh Yadav afirmou que o governo estadual está responsabilizando apenas funcionários de níveis inferiores enquanto protege os verdadeiros responsáveis pelo suposto esquema.

Já o analista político Rasheed Kidwai avalia que o escândalo pode representar um dos maiores desafios para o BJP antes das eleições estaduais.

Segundo ele, caso mais líderes religiosos critiquem publicamente a condução do caso, o impacto político poderá ser significativo, especialmente porque a construção do Templo de Ram sempre foi uma das principais bandeiras eleitorais do partido de Narendra Modi.

Escândalo pode influenciar eleições

Especialistas acreditam que o caso pode afetar diretamente o desempenho do BJP em Uttar Pradesh, onde o partido já sofreu perdas importantes nas eleições nacionais de 2024.

Além das investigações sobre corrupção, o episódio coloca em xeque a gestão de um dos maiores símbolos religiosos e políticos da Índia contemporânea.

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