Cinco anos depois, retirada dos EUA do Afeganistão ainda revela falhas e decisões controversas

Documentário revisita o caos da evacuação de Cabul, o atentado que matou 13 militares americanos e cerca de 170 civis e os questionamentos sobre as decisões tomadas pelo governo Biden

Cinco anos após a retirada das tropas dos Estados Unidos do Afeganistão, episódios da operação continuam alimentando debates sobre as decisões políticas e militares tomadas durante a evacuação de Cabul. Um novo documentário do Wall Street Journal recupera depoimentos de militares, diplomatas e outros envolvidos na operação e apresenta relatos sobre o caos vivido no aeroporto em agosto de 2021.

A retirada ocorreu após duas décadas de presença militar americana no país e terminou com a retomada do poder pelo Taleban. O episódio mais traumático aconteceu em 26 de agosto, quando um atentado suicida no Abbey Gate, uma das entradas do aeroporto internacional de Cabul, matou 13 militares americanos e cerca de 170 civis. O ataque foi reivindicado pelo Estado Islâmico-Khorasan (ISIS-K).

O documentário “The Path to Zero” (“O Caminho para o Zero”, em tradução literal), produzido pela Palladium Pictures para o jornal dos EUA, utiliza imagens de câmeras corporais e entrevistas para reconstruir os últimos dias da presença americana no país. A produção também apresenta relatos de militares sobre episódios de violência envolvendo forças afegãs durante a tentativa de controlar a multidão que buscava acesso ao aeroporto.

Bebê é entregue a soldado no aeroporto de Cabul enquanto milhares de afegãos tentavam fugir do país que acabava de ser dominado pelo Taleban (Foto: reprodução de vídeo)

Entre os depoimentos está o do ex-fuzileiro naval Joseph Laude. Ele afirma ter presenciado integrantes das chamadas Unidades Zero, forças especiais afegãs treinadas pela CIA, atropelando e atirando contra civis. Laude classificou os episódios como possíveis atrocidades e crimes de guerra. As acusações, porém, são apresentadas no documentário como relatos de testemunhas e não equivalem, por si só, a uma conclusão oficial de que crimes de guerra tenham sido cometidos.

O caos no aeroporto

Com a aproximação do prazo para a retirada, milhares de afegãos se concentraram nos arredores do Aeroporto Internacional Hamid Karzai. Muitos tentavam deixar o país antes que o Talibã consolidasse o controle sobre Cabul.

Os militares americanos precisavam controlar o acesso ao aeroporto e verificar documentos em meio a uma multidão que crescia rapidamente. Segundo relatos reunidos pelo documentário, os critérios para determinar quem poderia ser evacuado mudaram durante a operação, aumentando a dificuldade para militares e civis.

O ex-fuzileiro naval Edward Gonzalez relata o caso de uma mulher que passou horas tentando entrar no aeroporto por temer perseguição do Taleban. Segundo ele, não foi possível autorizar sua entrada.

A situação também produziu algumas das imagens mais conhecidas da retirada americana. Em determinado momento, afegãos desesperados chegaram a se agarrar à parte externa de um avião militar C-17 durante a decolagem. Algumas pessoas morreram após cair da aeronave.

A decisão sobre Bagram

Outro ponto questionado é o abandono da Base Aérea de Bagram, que durante anos funcionou como principal centro das operações americanas no Afeganistão.

A instalação foi desocupada em julho de 2021, semanas antes da retirada definitiva. Críticos da decisão sustentam que Bagram poderia ter oferecido melhores condições para organizar a evacuação de civis e aliados afegãos.

O documentário também recupera declarações de autoridades militares que defendiam a manutenção de uma presença americana limitada no país. A administração Biden, entretanto, manteve o compromisso de retirar as tropas.

A retirada ocorreu rapidamente depois que o Taleban avançou pelo território afegão e entrou em Cabul em agosto de 2021. O colapso das forças de segurança afegãs surpreendeu parte da comunidade internacional e acelerou a evacuação.

Debate continua

A operação permanece como um dos episódios mais controversos da política externa de Joe Biden. Críticos apontam falhas no planejamento, na avaliação da capacidade das forças afegãs e na organização da retirada. Defensores da decisão argumentam que a presença militar americana no país já durava duas décadas e que manter tropas indefinidamente não oferecia uma solução sustentável.

O documentário adota uma posição fortemente crítica em relação ao governo Biden e reúne principalmente depoimentos que questionam a condução da retirada. Por isso, seus relatos devem ser considerados dentro dessa perspectiva editorial.

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