Rússia bane site que denunciava erros de Putin e escândalos ligados ao governo

Proekt entra na lista de "organizações indesejáveis", e seus jornalistas devem parar de trabalhar sob o risco de enfrentarem processos criminais
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Uma decisão da justiça da Rússia, anunciada na quinta-feira (15), torna irregular a atuação do site jornalístico Proekt, em represália contra uma série de reportagens sobre erros ou ações questionáveis do presidente e de alguns de seus aliados. As informações são do jornal britânico The Guardian.

O Ministério da Justiça russo passou a listar o Proekt entre as “organizações indesejáveis”, o que obriga seus jornalistas a pararem de trabalhar sob o risco de processos criminais. Além do editor-chefe Roman Badanin, foram listados como “agentes estrangeiros” mais sete jornalistas, segundo a ONG Human Rights Watch: três do próprio Proekt, três da Radio Free Europe (RFE), também financiada pelos EUA, e uma da Open Media.

A decisão também respinga em todos os demais veículos jornalísticos do país, que ficam proibidos de fazer qualquer referência a conteúdo publicado pelo Proekt, associado à organização norte-americana Project Media Inc..

Rússia proíbe site investigativo que divulgou escândalos envolvendo Putin
O presidente Vladimir Putin acompanha o diálogo entre Rússia e Alemanha no Kremlin, Moscou, em janeiro de 2020 (Foto: Divulgação/Kremlin)

Jornalistas do site vinham investigando altos funcionários do Kremlin e haviam noticiado questões tidas como delicadas pelo governo, entre elas os erros no combate à Covid-19 e o envio de soldados mercenários à África. Também estavam na pauta do site o líder chechêno Ramzan Kadyrov e o empresário Yevgeny Prigozhin, aliados de Putin.

A ação ocorre no momento em que o Proekt investigava o ministro do Interior Vladimir Kolokoltsev, que enriqueceu muito desde a nomeação, em 2012, e é suspeito de ter ligações com o crime organizado. O site chegou a noticiar que Putin teve uma filha secreta com uma amante.

Na última semana, jornalistas do site tiveram suas casas invadidas para operações de busca e apreensão da polícia, usando como justificativa um antigo caso de calúnia envolvendo Badanin. Como parte da ação do governo visa a sufocar financeiramente o veículo jornalístico, eventuais doadores, através de qualquer esforço de crowdfunding (financiamento coletivo), também são passíveis de punição.

A repressão do governo Putin a veículos de imprensa tem aumentado. Sites noticiosos como Meduza e VTimes também foram declarados “agentes estrangeiros”, mas a medida de considerar o veículo ilegal, caso do Proekt, não é habitual. Muitos jornalistas ligados ao oposicionista Alexei Navalny, atualmente preso em Moscou, tiveram suas casas invadidas pela polícia sob ordens de busca e apreensão. A RFE recebeu multas milionárias.

Jornalista preso

Um tribunal da Crimeia, península ocupada pela Rússia, apresentou acusações contra o jornalista Vladyslav Yesypenko, correspondente freelance da RFE, também na quinta-feira (15). A Ucrânia, que reivindica a região, os Estados Unidos e organizações de imprensa contestam a acusação, tida como mais uma ação autoritária de Moscou para calar a oposição.

Yesypenko, que é cidadão russo-ucraniano, foi detido em março pela FSB (Agência de Segurança Federal, da sigla em inglês). Inicialmente, ele foi acusado de espionagem em favor do governo ucraniano. Agora, responde por porte e transporte de explosivo, e a pena pode chegar a 18 anos de reclusão.

Em abril, num depoimento a portas fechadas, o jornalista alegou que foi torturado com choques elétricos, espancado e ameaçado de morte, a menos que “confessasse” a espionagem em nome da Ucrânia, segundo o advogado dele. A acusação de espionagem, porém, jamais foi citada no indiciamento.

“Vladyslav Yesypenko é culpado de nada mais do que ser jornalista. Ele estava tentando compartilhar a verdade sobre a situação na Crimeia com o mundo exterior antes de enfrentar detenção e aparente tortura nas mãos de seus captores baseados na Rússia”, disse Jamie Fly, presidente da RFE.

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