Turquia vira obstáculo para adesões de Finlândia e Suécia à Otan: ‘Não temos uma visão positiva’

Presidente turco Recep Erdogan diz que nações escandinavas 'hospedam terroristas' e sugere que pode usar seu poder de veto como membro da aliança
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Os planos da Finlândia de se juntar à Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), anunciados na quinta-feira (13) e que tendem a ser acompanhados pela Suécia, encontraram um obstáculo que pode se tornar intransponível: a Turquia, que faz parte da aliança e, como tal, tem poder de veto. A posição de Ancara, contrária ao ingresso dos novos membros, foi anunciada nesta sexta-feira (13) pelo presidente Recep Tayyip Erdogan, de acordo com a agência Reuters.

“Estamos acompanhando os desenvolvimentos em relação à Suécia e à Finlândia, mas não temos uma visão positiva”, disse Erdogan a repórteres em Istambul, acrescentando que no passado a Otan já havia errado ao aceitar a Grécia como Estado-Membro. “Como Turquia, não queremos repetir erros semelhantes. Além disso, os países escandinavos são hóspedes para organizações terroristas”.

As palavras de Erdogan remetem a denúncias antigas que ele faz contra as nações escandinavas e outros países ocidentais pelo tratamento dispensado a organizações que a Turquia classifica como terroristas. Sobretudo as milícias curdas PKK (Partido dos Trabalhadores Curdos) e YPG (Unidade de Proteção do Povo) e os seguidores do clérigo islâmico Fethullah Gulen, que vive nos EUA.

Turquia contesta a iniciativa e vira problema para os ingressos de Finlândia e Suécia na Otan
Presidente da Turquia Recep Tayyip Erdogan, em 2015 (Foto: Presidência da Federação Russa/Divulgação)

O PKK luta pela autonomia curda na Turquia há três décadas e tem bases também na Síria, onde é representado pelo YPG. Segundo o ministro da Defesa turco Hulusi Akarem, em 35 anos, a “campanha de terror” da milícia já matou mais de 40 mil civis e militares. O objetivo de Ancara é “exterminar o grupo”, disse ele. Já Gullen e seus seguidores são acusados de tentar um golpe de Estado em 2016.

“As elites de segurança nacional turcas enxergam Finlândia e Suécia como semi-hostis, dada a presença do PKK e dos gulenistas. Vai ser preciso torcer os braços para conseguir a aprovação”, disse Aaron Stein, diretor de pesquisa do Foreign Policy Research Institute, no Twitter.

Pacto de defesa

Embora não deixe claro se a Turquia oficialmente vetará a adesão, a posição de Erdogan vai de encontro ao que afirmou no dia anterior o secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg. Segundo ele, os possíveis novos membros seriam recebidos de “braços abertos” e enfrentariam um processo de admissão “suave e rápido”.

Atualmente, Finlândia e Suécia são parceiras importantes da aliança, marcam presença em reuniões, são informadas dos desdobramentos da guerra na Ucrânia e têm equipamento militar compartilhado com a Otan.

No entanto, embora a adesão oficial das duas nações escandinavas pareça mera formalidade, ela é indispensável para beneficiá-las do pacto de defesa da Otan, segundo o qual um ataque a um Estado-Membro é um ataque a todos os Estados-Membros.

Ao passo que pode comprometer os planos da aliança, a declaração de Erdogan é bem recebida por Moscou, que contesta a iniciativa e chegou a ameaçar uma retaliação através de medidas “técnico-militares”, caso as novas filiações sejam confirmadas.

Finlândia e Rússia compartilham uma fronteira de cerca de 1,3 mil quilômetros, e o ingresso dos escandinavos na Otan criaria imediatamente a maior linha divisória entre o bloco e o território russo.

Relação Moscou-Ancara

No que tange à guerra na Ucrânia, a Turquia tenta manter uma relação minimamente neutra, vez que tem relações cordiais tanto com Moscou quanto com Kiev. Entretanto, desde antes do conflito a Rússia vinha contestando a iniciativa de Ancara de vender armamento aos ucranianos.

O principal ponto de discórdia entre turcos e russos é o drone Bayraktar TB2, arma de maior destaque do exército da Ucrânia para conter os avanços das tropas russas na guerra. O porta-voz do Kremlin Dmitry Peskov chegou a alertar, no final de 2021, que o Bayraktar poderia ter um impacto “desestabilizador” na região.

Se por um lado a Turquia arma os ucranianos e tem criticado a iniciativa russa de invadir a nação vizinha, por outro, já se posicionou contra as sanções impostas pelo Ocidente a Moscou, mantendo relações comerciais inabaláveis, especialmente no setor de energia.

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