ARTIGO: Cicatrizes que perduram e o legado da pandemia de Covid-19

Economistas sugerem investimentos em educação, infraestrutura, cooperação internacional e reformas de produtividade
Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no whatsapp
Compartilhar no linkedin
Compartilhar no email

Este conteúdo foi publicado originalmente no Blog do FMI (Fundo Monetário Internacional)

por Sonali Das e Philippe Wingender, economistas da Divisão de Estudos Econômicos Internacionais do Departamento de Estudos do FMI

As recessões causam enormes estragos, e os danos costumam ser de longa duração. Empresas fecham, gastos de investimento são reduzidos e os desempregados podem perder habilidades e motivação com o passar dos meses.

Contudo, a recessão provocada pela pandemia de Covid-19 não é uma recessão comum. Em comparação com crises mundiais anteriores, a contração foi súbita e profunda: com base em dados trimestrais, verifica-se que o produto mundial diminuiu cerca de três vezes mais do que na crise financeira mundial, na metade do tempo.

As pressões financeiras sistêmicas — associadas a danos econômicos duradouros — foram em grande medida evitadas até o momento, graças à adoção de políticas sem precedentes. Entretanto, a trajetória até a recuperação continua desafiadora, sobretudo no caso dos países com espaço fiscal limitado, e é ainda mais difícil em virtude do impacto diferenciado da pandemia.

ARTIGO: Cicatrizes que perduram e o legado da pandemia de Covid-19
Menino trabalha preso por corda e cinto na lateral de um prédio em Daca, Bangladesh (Foto: UN Photo)

Lições do passado

A amplitude da recuperação dependerá da persistência dos danos econômicos, ou das “sequelas”, a médio prazo. Isso vai variar de país para país, dependendo da trajetória futura da pandemia; da participação dos setores de alto contato; da capacidade de adaptação das empresas e dos trabalhadores; e da eficácia das políticas em resposta.

Essas incógnitas tornam difícil prever a extensão das sequelas, mas é possível extrair algumas lições da história. Recessões graves no passado, sobretudo as mais profundas, estiveram associadas a perdas persistentes do produto devido à queda da produtividade. Embora a pandemia tenha estimulado um aumento da digitalização e da inovação nos processos de produção e distribuição (pelo menos em alguns países), a necessidade de realocar recursos para se adaptar a um novo normal pode ser maior do que em recessões anteriores, afetando o crescimento da produtividade no futuro. Outro risco é que a pandemia ocasionou um aumento do poder de mercado das empresas dominantes, que se tornam cada vez mais entrincheiradas à medida que os concorrentes desabam.

A produtividade também foi afetada pelas rupturas causadas pela Covid-19 nas redes de produção. Os setores de alto contato, como artes e entretenimento, hospedagem e restaurantes, e comércio atacadista e varejista não são tão essenciais para as redes de produção como, por exemplo, o setor energético. No entanto, uma análise histórica mostra que mesmo os choques nesses setores periféricos podem ser bastante amplificados por meio de suas repercussões em outros setores. O fechamento de bares e restaurantes, por exemplo, pode afetar propriedades rurais e vinícolas, resultando em menor demanda por tratores e outros implementos agrícolas. Assim, embora o impacto inicial tenha se concentrado nos setores de serviços de maior contato, a pandemia resultou em uma retração generalizada devido à magnitude da ruptura.

Implicações a médio prazo

Apesar do crescimento superior ao previsto à medida que a economia mundial se recupera do choque causado pela Covid-19, projetamos que o produto mundial a médio prazo seja cerca de 3% inferior em 2024 em relação às projeções feitas antes da pandemia. Como a estabilidade financeira foi em grande parte preservada, essa sequela prevista é menor do que a observada após a crise financeira mundial.

Contudo, ao contrário do que ocorreu durante a crise financeira mundial, as economias de mercados emergentes e em desenvolvimento devem enfrentar sequelas mais profundas em comparação com as economias avançadas, e os países de baixa renda devem sofrer perdas maiores.

Essa divergência entre os países é consequência de estruturas econômicas variadas e da dimensão da resposta da política fiscal de cada país. Devido à forma como o vírus é transmitido, as economias que dependem mais do turismo ou têm uma parcela maior de setores de alto contato, como as ilhas do Pacífico e o Caribe, devem experimentar perdas mais persistentes. Por exemplo, estima-se que o PIB das ilhas do Pacífico em 2024 fique 10% abaixo das projeções anteriores à pandemia. Muitos desses países também têm menos espaço para a aplicação de políticas e capacidade reduzida para implementar uma resposta ampla na área da saúde ou para apoiar os meios de subsistência.

ARTIGO: Cicatrizes que perduram e o legado da pandemia de Covid-19
Perda de renda das famílias é um dos maiores legados da crise da pandemia; notas de dólar enfileiradas (Foto: Public Domain Pictures)

O fechamento generalizado das escolas ocorreu em todos os países, mas os impactos adversos na aprendizagem e aquisição de habilidades têm sido maiores nos países de baixa renda. As consequências em termos de perda de renda individual a longo prazo e danos à produtividade agregada podem ser um legado crucial da crise provocada pela Covid-19.

Políticas para limitar as sequelas

A experiência de recessões anteriores ressalta a importância de evitar uma crise financeira e assegurar a adoção de políticas de apoio eficazes até que a recuperação esteja mais consolidada.

Os países precisarão adaptar suas políticas aos diferentes estágios da pandemia, com uma combinação de investimentos públicos e apoio mais bem direcionado às famílias e empresas afetadas. À medida que a cobertura vacinal melhore e as restrições de oferta diminuam, esses esforços devem se concentrar em três prioridades:

– Primeiro, reverter o retrocesso em termos da acumulação de capital humano. Para enfrentar o provável aumento da desigualdade resultante da pandemia, as redes de proteção social devem ser ampliadas e recursos suficientes devem ser destinados à saúde e à educação.

– Segundo, apoiar a produtividade por meio de políticas para facilitar a mobilidade de emprego e promover a concorrência e a inovação.

– Terceiro, impulsionar o investimento em infraestrutura pública, sobretudo em infraestrutura verde para ajudar a atrair investimento privado.

Por último, será necessária uma forte cooperação internacional para enfrentar a crescente divergência entre os países. É vital que as economias com restrições financeiras tenham acesso adequado à liquidez internacional para cobrir as despesas de desenvolvimento. No campo da saúde, isso também significa assegurar a produção suficiente e a distribuição universal de vacinas – entre outras coisas, por meio de financiamento adequado para o mecanismo COVAX – a fim de ajudar os países em desenvolvimento a vencer a pandemia e evitar sequelas ainda piores.

Tags: