Ex-famílias ligadas ao Estado Islâmico enfrentam ódio de vizinhos na volta para casa

Mulheres antes casadas com militantes do EI tiveram permissão para deixar campo de detenção na Síria e voltaram para Raqqa

Dezenas de milhares de viúvas e esposas de combatentes do Estado Islâmico (EI) que foram presas em Al-Hol, o maior campo de refugiados e deslocados internos na Síria, depois que a coalizão liderada pelos EUA e as forças curdas expulsaram a organização jihadista da região em 2019, têm enfrentado preconceito da sociedade local e encontram dificuldades para se reinserir. Sob olhares desconfiados, encontrar emprego não é tarefa fácil, como mostrou reportagem da agência Associated Press.

Após as autoridades curdas terem supervisionado o campo, constatando que as famílias perderam o vínculo com o grupo extremista e não representam uma ameaça à sociedade, um número crescente de pessoas ganhou autorização para deixar o local. Porém, a liberdade trouxe uma nova realidade: elas não são bem vistas nem bem-vindas de volta.

Reintegrar-se na Síria e no Iraque revelou a mulheres e crianças os ressentimentos pesados que ficaram como legado das atrocidades cometidas pelo EI e da longa e sangrenta guerra que ocorreu com os militantes de lá.

Civis recebem água potável do Unicef em Al-Hol, Síria, abril de 2020 (Foto: Unicef/Delil Souleiman)

Porém, o conflito não acabou. Ainda há células adormecidas do EI na região, que continuam a coordenar ataques e disseminar o medo. No começo da semana passada, insurgentes na cidade de Raqqa, no centro-norte do país, atacaram e mataram seis membros das Forças Democráticas Sírias (FDS), uma coalizão de milícias curdas apoiada por Washington. O ataque ocorreu após uma onda de ofensivas do FDS e dos EUA contra militantes do EI no leste da Síria.

Uma das mulheres que sente na pele a discriminação por ter sido casada com um combatente islâmico é Marwa Ahmad. Ela raramente sai de sua casa em ruínas na cidade síria de Raqqa. A mãe solteira de quatro filhos é alvo de desconfiança da comunidade e não consegue trabalho. Na escola, suas crianças sofrem bullying e são até agredidas.

Segundo Marwa, esse é preço que se paga por quem um dia foi associado ao EI, que invadiu uma faixa da Síria e do Iraque em 2014 e dali em diante estabeleceu um regime radical e violento por anos.

Ela e a irmã se juntaram ao EI depois que o irmão, que foi um membro do grupo, morreu durante um ataque aéreo dos EUA em 2014. Marwa se casou com um insurgente, que está preso desde 2019.

“Agora, tenho que enfrentar as pessoas, e muitas pessoas nesta sociedade foram feridas pelo Estado Islâmico”, disse Ahmad. “Claro que não foi só a organização que o fez. Nós, as pessoas que vivem na Síria, fomos feridos pelo Exército Livre da Síria, pelo regime e pelo EI, certo? Mas eles não dizem isso”.

Nos últimos anos, o EI se enfraqueceu financeira e militarmente. Em 2017, o exército iraquiano anunciou ter derrotado a organização no país, com a retomada de todos os territórios que ela dominava desde 2014. O grupo, que chegou a controlar um terço do Iraque, hoje mantém apenas células adormecidas que lançam ataques esporádicos, quase sempre focados em agentes do governo. Já as FDS anunciaram em 2019 o fim do “califado” criado pela organização extremista na Síria.

Desde então, o que fazer com as mulheres e crianças em Al-Hol se tornou um problema para as autoridades lideradas pelos curdos. A maioria das mulheres são esposas e viúvas de combatentes do EI. Milhares de sírios e iraquianos foram libertados e enviados para casa, destino igual ao de inúmeros estrangeiros.

Mesmo em meio à miséria, Ahlam Abdulla, outra mulher libertada de Al-Hol, diz que a vida no campo era melhor do que em sua cidade natal, Raqqa.

“Em geral, todos estão contra nós. Somos combatidos onde quer que vamos”, afirmou ela, contando ainda que o marido se juntou ao EI e trabalhou em um escritório para o grupo militante, enquanto ela apenas cuidava da casa.

Por que isso importa?

Al-Hol é o lar de cerca de 55 mil pessoas, sendo mais de 80% mulheres e crianças. Quase dez mil dos detidos são familiares de combatentes estrangeiros do EI que viajaram à Síria para se juntar à jihad. Eles foram colocados no campo após o grupo extremista ser derrotado em 2019 pelas FDS.

Agora, essas pessoas são rejeitadas inclusive por seus países de origem, pois se radicalizaram ao longo dos anos e são vistas como uma ameaça à segurança. No campo, familiares de jihadistas são mantidos em um complexo separado e vigiado, após relatos de surtos de violência entre eles e outras pessoas dentro da instalação.

Com condições precárias de higiene e saúde, os moradores de Al-Hol vivem à sombra da violência e da insegurança. São comuns as ações de grupos armados que tentam invadir o campo com o objetivo de libertar pessoas detidas.

“Milhares de pessoas estão expostas a violência, exploração, abuso e privação em condições que podem constituir tortura, conforme o direito internacional”, disse no início de 2021 um grupo de especialistas em direitos humanos da ONU (Organização das Nações Unidas), citando que ao menos 57 países têm cidadãos detidos nos campos da Síria, sobretudo Al-Hol e Al-Roj.

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