Oriente Médio

Recuperação do Iêmen depende de cessar-fogo imediato, segundo órgão da ONU

Relatório argumenta que a pobreza extrema poderia ser erradicada do país dentro de uma geração, ou até 2047, se os combates cessarem agora

Devastado pela guerra, o Iêmen está entre as nações mais pobres do mundo. Segundo relatório divulgado nesta terça-feira (23) pelo Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), a recuperação do país é possível, mas para isso seria necessário encerrar imediatamente o conflito.

O relatório argumenta que a pobreza extrema poderia ser erradicada do país dentro de uma geração, ou até 2047, se os combates cessarem agora. “O estudo apresenta uma imagem clara de como o futuro poderia ser com uma paz duradoura, incluindo novas oportunidades sustentáveis ​​para as pessoas”, disse o administrador do Pnud Achim Steiner.

A guerra brutal no Iêmen, que já dura sete anos, fez o país perder US$ 126 bilhões em crescimento econômico potencial. De acordo com o escritório de assuntos humanitários da ONU, 80% da população, ou 24 milhões de pessoas, dependem de ajuda e assistência de proteção, incluindo 14,3 milhões que estão em extrema necessidade.

Crianças brincam em frente a casa destruída por ataque aéreo na capital do Iêmen, Sanaa, em julho de 2019 (Foto: Unicef/Alessio Romenzi)

Por meio de modelos estatísticos que analisam cenários futuros, o relatório revela como garantir a paz até janeiro de 2022, com um processo de recuperação inclusivo que ajudaria a reverter tendências profundas de empobrecimento, para o Iêmen atingir o status de renda média em 2050. Além disso, a desnutrição poderia ser reduzida à metade até 2025, e o país poderia atingir US$ 450 bilhões de crescimento econômico até a metade do século. O investimento deveria ser focado em áreas como agricultura, governança inclusiva e empoderamento das mulheres.

Auke Lootsma, representante Pnud no Iêmen, destacou a importância de abordar o que chamou de “profundos déficits de desenvolvimento” no país, como a desigualdade de gênero. “Acho que é justo dizer que o Iêmen, seja qual for o índice de gênero que você olhe, está sempre na parte inferior”, disse ele. “Então, trazer as mulheres para o rebanho, torná-las parte da força de trabalho e realmente empoderar as mulheres também para contribuir para a recuperação e reconstrução do Iêmen será extremamente importante”.

O lado negativo

Ao mesmo tempo em que apresenta a projeção positiva, o relatório mostra o outro lado, para o caso de o conflito continuar em 2022 e além. Os autores projetam que 1,3 milhão de vidas serão perdidas se a guerra continuar até 2030. Além disso, uma proporção crescente dessas mortes não será devido aos combates, mas aos impactos sobre os meios de subsistência, preços dos alimentos e a deterioração da saúde, educação e serviços básicos.

O Pnud afirma que os planos para apoiar a recuperação devem ser desenvolvidos continuamente, mesmo enquanto os combates continuam. “O povo do Iêmen está ansioso para avançar na recuperação do desenvolvimento sustentável e inclusivo”, disse Khalida Bouzar, diretora do escritório regional para os Estados Árabes.

Enquanto os combates prosseguem, a ONU mostra preocupação com a segurança dos civis no norte da província de Marib, que abriga cerca de um milhão de pessoas deslocadas. A Acnur, agência da ONU para refugiados, alerta que, à medida que a linha de frente do conflito se aproxima de áreas densamente povoadas na região rica em petróleo, mais vidas ficam em perigo.

“Os ataques de foguetes perto dos locais que hospedam os deslocados estão causando medo e pânico. O último incidente foi relatado em 17 de novembro, quando um projétil de artilharia explodiu, sem baixas, perto de um local próximo à cidade de Marib. Equipes da Acnur relatam que há combates intensos nas montanhas que cercam a cidade, e o som de explosões e aviões pode ser ouvido dia e noite”, diz Shabia Mantoo, porta-voz da Acnur.

Por que isso importa?

O Iêmen vive um conflito que começou no final de 2014, após o grupo rebelde houthi, alinhado ao Irã, expulsar o governo da capital iemenita Sanaa. Uma coalizão militar liderada pela Arábia Saudita interveio a favor dos antigos governantes, acusados de corrupção pelos militantes de oposição.

Desde janeiro, quando Washington incluiu os rebeldes em sua lista de grupos terroristas internacionais, o grupo intensificou os ataques com mísseis e drones contra a Arábia Saudita. Os houthis rejeitam a proposta saudita de cessar-fogo e exigem a abertura do espaço aéreo e dos portos do Iêmen.

Há relatos de que os houthis recrutam menores – em especial crianças – para a linha de frente das batalhas e para esgotar as munições das forças adversárias

crise humanitária decorrente dos combates é tida como o mais grave do mundo. Em virtude dos combates, cerca de dois milhões de civis migraram para centenas de alojamentos improvisados no meio do deserto.

Conteúdo adaptado do material publicado originalmente em inglês pela ONU News