Segurança Internacional

Segundo relatório de inteligência, Rússia monitorou negócios da família Erdogan

Após a crise entre os países em 2015, iniciada pela queda de um caça, russos estariam no encalço de familiares do presidente da Turquia

Um relatório de inteligência emitido pela FSB (Agência Nacional de Segurança, da sigla em inglês), da Rússia, encontrado no telefone de um ex-agente da Organização de Inteligência Turca (MIT), revela planos e estratégias de Moscou contra a Turquia, em resposta à queda de um caça russo pelas forças turcas, em 2015. As informações são do site Nordic Monitor.

O relatório mostra uma série de sugestões políticas e medidas militares que deveriam ser adotadas pelas autoridades russas contra a Turquia. Também aponta que a inteligência russa estaria no encalço de familiares do presidente turco Recep Tayyip Erdogan. Para isso, contou com a ajuda de um espião local, supostamente integrante de um movimento antigovernista.

O telefone era de propriedade de Enver Altaylı, 77 anos, um alto ex-oficial de inteligência e assessor dos ex-primeiros-ministros turcos Turgut Ozal e Süleyman Demirel. Ele foi preso em 2017 por suposta participação no Gülen, um grupo de oposição a Erdogan. Altaylı teve um pedido de condenação a 42 anos e seis meses de prisão por parte do promotor do caso, sob as acusações de “dirigir uma organização terrorista armada” e de “espionagem política e militar”.

Putin já havia vendido um sistema de mísseis terra-ar S-400 a Erdogan, o que causou problemas para o presidente turco com os EUA (Foto: WikiCommons/Kremlin)

Na audiência mais recente de seu julgamento, ocorrida em setembro, Altaylı alegou que não poderia ser acusado de espionagem, por não ter cometido nenhum crime contra o governo turco. E que um eventual julgamento caberia somente a procuradores da Federação Russa.

Altaylı também alertou que, durante o processo, o governo turco expôs informações sigilosas, dando aos russos acesso a segredos de Estado da Turquia. Segundo ele, o relatório da inteligência russa em seu telefone foi incluído na acusação como se fosse de sua autoria. O documento teria sido decifrado e incluído no arquivo judicial.

“Quem está me acusando de espionagem está, na verdade, compartilhando informações secretas do Estado com os russos”, acrescentou.

Exposição da família presidencial

O relatório, redigido pelo vice-diretor da FSB Igor Gennadyevich Sirotkin, duas semanas após a queda do avião de guerra russo na fronteira turco-síria, recomenda uma série de medidas militares e políticas a serem tomadas contra a Turquia. Há diversas sugestões listadas, como a de colocar o exército turco em uma situação difícil na Síria e assegurar um novo afluxo de refugiados à Turquia, até agentes russos agindo em instituições turcas engajados em atividades de desinformação.

As informações, submetidas ao diretor da FSB, Alexander Vasilyevich Bortnikov, revelam que Sirotkin se referiu ao filho de Erdogan, Bilal Erdogan, como “ministro da energia do Estado Islâmico (EI)” e sugeriu ampliar a vigilância dos familiares do presidente.

O relatório também menciona a companhia marítima BMZ, de propriedade de Bilal Erdgan, e recomenda uma investigação sobre as fontes de financiamento usadas para a compra de novos petroleiros. Sirotkin também sugeriu que o então ministro da Energia, o genro de Erdogan Berat Albayrak, descrito como um “chefe da mídia” no relatório, seja objeto de monitoramento e vigilância de áudio por agentes russos no MIT.

Antes da crise entre os dois países, em 2015, os russos fizeram um trabalho de inteligência detalhado sobre como o petróleo do EI chegou ao mercado internacional e coletaram informações sobre Berat Albayrak e Bilal Erdoggan.

Acordo militar

Os laços entre os dois países ficaram mais estreitos quando a Turquia fechou um acordo para a compra de um sistema de defesa aérea S-400 de fabricação russa, apesar das repetidas advertências dos Estados Unidos em 2017, um ano após uma tentativa de golpe que resultou no expurgo de oficiais pró-Otan do exército turco.

Por conta disso, em dezembro de 2020, os EUA aplicaram sanções à Turquia após o país selar o negócio. À época, Washington já havia removido os turcos da parceria F-35, que reúne outros países interessados em jatos da Lockheed Martin.

Agora, as nações têm negociado a transferência de tecnologia e a compra de um segundo sistema antiaéreo S-400 por parte dos turcos. Erdogan inclusive declarou em uma entrevista à emissora norte-americana CBS News em setembro que pretende fechar o negócio.