O Taleban intensificou nas últimas semanas uma ofensiva contra orfanatos privados no Afeganistão, fechando instituições que ofereciam abrigo, educação e cuidados básicos a milhares de crianças em situação de vulnerabilidade. Muitas delas, segundo organizações humanitárias, perderam os pais em décadas de guerra no país. As informações são da Radio Free Europe.
As autoridades talibãs determinaram o fechamento forçado de lares infantis privados e transferiram as crianças para instituições administradas pelo Estado. O governo afirma que a medida busca padronizar o atendimento e melhorar a supervisão, mas críticos alertam para a falta de recursos dessas unidades e para o risco de uso ideológico dos espaços.

De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), cerca de 1,6 milhão de crianças ficaram órfãs no Afeganistão em razão dos conflitos armados. A pobreza extrema e o impacto da epidemia de ópio também contribuíram para que milhões de menores perdessem um ou ambos os pais, aumentando a pressão sobre os sistemas de acolhimento.
Entre as instituições fechadas está o Rayan Children, orfanato privado localizado em Cabul. O espaço era financiado pelo cantor e compositor afegão Shafiq Mureed, radicado nos Estados Unidos. Em publicação nas redes sociais, Mureed relatou que crianças choraram ao serem retiradas do local, onde conviviam com os mesmos educadores, cuidadores e funcionários havia anos.
Segundo o fundador, membros do Taleban chegaram sem aviso prévio e ordenaram o encerramento das atividades, citando um decreto do líder do grupo, Mullah Haibatullah Akhundzada, que não foi tornado público. A direção do Rayan Children afirmou que o fechamento não teve relação com questões financeiras, políticas ou religiosas.
Ativistas de direitos humanos e especialistas em proteção à infância alertam que a retirada repentina das crianças pode causar sérios impactos emocionais. Para eles, órfãos são especialmente vulneráveis a mudanças bruscas de ambiente e podem sofrer danos psicológicos duradouros ao serem afastados de locais onde se sentiam seguros.
Diretores de orfanatos também afirmam que a medida pode comprometer a educação e o desenvolvimento das crianças. Segundo relatos, muitos desses lares oferecem não apenas abrigo, mas alimentação regular, ensino formal e acompanhamento contínuo.
O Ministério do Trabalho e Assuntos Sociais do Taleban informou que atualmente administra cerca de 60 lares infantis em todo o país, atendendo aproximadamente 10 mil meninos e meninas. O grupo afirma que a integração dos centros privados ao sistema estatal permitirá um atendimento mais organizado.
Analistas avaliam que a repressão aos orfanatos privados faz parte de uma estratégia mais ampla do Taleban para controlar escolas, universidades e instituições de ensino. Desde que retomou o poder em 2021, o grupo tem fechado ou convertido escolas seculares e centros de formação profissional em seminários islâmicos, ampliando o número de madraças no Afeganistão.
Críticos acusam o Taleban de usar essas instituições para doutrinar crianças e jovens com sua ideologia extremista, aprofundando preocupações da comunidade internacional sobre o futuro da educação e dos direitos da infância no país.
O isolamento afegão
Questões de direitos humanos representam o maior obstáculo à reinserção do Afeganistão na comunidade internacional. Sobretudo a repressão imposta às mulheres, que é classificada por muitos países e entidades humanitárias como apartheid de gênero.
As restrições às afegãs incluem a proibição de estudar, trabalhar e sair de casa sem a presença de um homem. Isso resulta na perda de emprego para muitas mulheres no país, contribuindo assim para o empobrecimento da população em geral.