Mineração de ouro no Afeganistão: confrontos mortais expõem atuação do Taleban e apoio chinês

Disputa por jazidas no norte do Afeganistão deixa mortos, acende alerta sobre mineração sem fiscalização e reforça o papel da China na exploração de recursos sob o regime do Taleban

Confrontos recentes em uma mina de ouro no norte do Afeganistão reacenderam o debate sobre a exploração mineral sob o regime do Taleban e o crescente envolvimento da China no setor. Pelo menos quatro pessoas morreram e cinco ficaram feridas após disputas entre moradores locais e funcionários de uma empresa de mineração no distrito de Chah Ab, na província de Takhar. As informações são da Radio Free Europe.

Segundo o Ministério do Interior talibã, as operações foram suspensas enquanto as autoridades investigam o episódio, que teria começado após escavações em áreas agrícolas e residenciais. Moradores afirmam que a falta de consulta às comunidades e a ocupação de terras tradicionais provocaram protestos que terminaram em violência.

Paisagem montanhosa no Afeganistão (Foto: WikiCommons)

Desde o retorno do Taleban ao poder em 2021, a mineração passou a ser apresentada como um dos pilares da recuperação econômica do Afeganistão. No entanto, especialistas alertam que o setor cresce sem transparência, com fiscalização limitada e contratos pouco claros, sobretudo em regiões ricas em ouro como Badakhshan e Takhar.

A presença chinesa tem se intensificado por meio de empresas estatais e consórcios afegãos-chineses. Em novembro de 2025, ataques contra trabalhadores chineses em áreas próximas à fronteira com o Tadjiquistão já haviam exposto o grau de tensão entre comunidades locais e empreendimentos estrangeiros ligados à extração mineral.

Moradores relatam deslocamento forçado, destruição ambiental e exclusão econômica. Em distritos como Shahr-e-Buzurg, áreas antes utilizadas por garimpeiros artesanais foram cercadas e passaram a ser exploradas com maquinário pesado, sob vigilância armada. Plantações, pastagens e cursos de rios também sofreram alterações significativas, afetando diretamente a subsistência local.

Para o Taleban, a mineração representa uma importante fonte de divisas em meio a sanções internacionais e isolamento diplomático. O governo afirma que os projetos estrangeiros vão gerar empregos e impulsionar o desenvolvimento nacional, mas economistas alertam para o risco de esgotamento das jazidas, aumento da desigualdade e fortalecimento de redes de clientelismo.

Analistas defendem que o Afeganistão invista no processamento interno de seus minerais para criar cadeias de valor e empregos sustentáveis. Sem isso, o país corre o risco de repetir um modelo extrativista que exporta riqueza bruta, amplia conflitos locais e deixa poucos benefícios econômicos para a população.

Tags: