O atentado suicida contra um restaurante frequentado por chineses em Cabul, reivindicado pelo Estado Islâmico-Khorasan (EI-K) , reacendeu o debate sobre a segurança no Afeganistão sob o Taleban e revelou uma campanha crescente do grupo extremista contra cidadãos e interesses chineses na Ásia Central. As informações são da Radio Free Europe.
O ataque ocorrido em 19 de janeiro, no restaurante Lanzhou Chinese Noodles, no centro da capital afegã, deixou ao menos sete mortos e 13 feridos, incluindo um cidadão chinês. Em comunicado, o EI-K afirmou ter incluído chineses em sua lista de alvos como resposta às políticas de Beijing na região de Xinjiang, onde mais de um milhão de muçulmanos uigures e outras minorias foram submetidos a detenções em massa.

Segundo analistas, o atentado faz parte de uma estratégia mais ampla do EI-K para minar a credibilidade do Taleban, que desde 2021 tenta se apresentar como capaz de garantir segurança e estabilidade no país. Para o grupo extremista, a presença chinesa no Afeganistão simboliza tanto apoio internacional ao regime talibã quanto oportunidades econômicas que fortalecem o governo.
A China se tornou um dos principais parceiros diplomáticos e econômicos do Taleban, mesmo sem reconhecer formalmente o governo. Empresas chinesas demonstraram interesse em projetos de mineração, infraestrutura e energia, enquanto cidadãos chineses passaram a atuar no país como engenheiros, técnicos e empresários. Esse cenário transformou esses civis em alvos visíveis para o EI-K.
Especialistas apontam que o grupo extremista busca criar um ambiente de insegurança que desestimule investimentos chineses, enfraquecendo a economia afegã e, consequentemente, o Taleban. Além disso, os ataques funcionam como uma demonstração de força, contrariando declarações oficiais do governo de que o EI-K estaria neutralizado.
Apesar de o Taleban afirmar que o Estado Islâmico não possui bases ativas no Afeganistão, analistas avaliam que o grupo mantém capacidade operacional, especialmente por meio de células móveis e ações transfronteiriças. O EI-K também atua no Paquistão e no Tadjiquistão, onde trabalhadores chineses foram mortos em atentados recentes.
A escalada da violência contra chineses ocorre em meio à crescente rivalidade entre o Taleban e o EI-K, que disputa influência regional e defende a criação de um califado islâmico, em oposição ao projeto nacionalista do governo afegão. Nesse contexto, cidadãos chineses seguem no centro de uma disputa geopolítica que envolve segurança, ideologia e interesses econômicos estratégicos.
Por que isso importa?
Embora tenha ganhado notoriedade somente após o Taleban ascender ao poder, o EI-K não é novo no cenário afegão. O grupo extremista opera no Afeganistão desde 2015 e surgiu na esteira da criação do EI. Foi formado originalmente por membros de grupos do Paquistão que migraram para fugir da crescente pressão das forças de segurança paquistanesas.
Agora que a ocupação estrangeira no Afeganistão terminou e que o antigo governo foi deposto pelo Taleban, os principais alvos do EI-K têm sido a população civil e os próprios talibãs, tratados como apóstatas pela facção de Khorasan, sob a acusação de que abandonaram a jihad por uma negociação diplomática.
Os ataques suicidas são a principal marca do EI-K, que habitualmente tem uma alta taxa de mortes por atentado. O mais violento de todos ocorreu durante a retirada de tropas dos EUA e da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), quando as bombas do grupo mataram 183 pessoas na região do aeroporto de Cabul.
Não há diferença substancial entre EI e EI-K, somente o local de origem, a região de Khorasan, originalmente parte do Irã.