Supermercados cheios, direitos vazios? O paradoxo russo após quatro anos de guerra

Inflação, censura, deserções e apoio popular sustentado marcam o impacto interno da guerra iniciada por Vladimir Putin em 2022, enquanto Moscou mantém discurso de resistência às sanções ocidentais

A guerra na Ucrânia completa quatro anos na terça-feira (24) e os efeitos dentro da Rússia revelam um país que mudou, mas não colapsou. Desde o anúncio da chamada “operação militar especial” pelo presidente Vladimir Putin, em fevereiro de 2022, o cotidiano russo passou por transformações econômicas, políticas e sociais profundas. As informações são da Al Jazeera.

Mesmo sob sanções impostas por Estados Unidos e União Europeia (UE), Moscou mantém supermercados abastecidos, consumo ativo nas grandes cidades e índices oficiais que indicam estabilidade econômica. Ao mesmo tempo, o Kremlin ampliou leis contra “notícias falsas” e endureceu o controle sobre plataformas digitais.

Açougue em supermercado russo (Foto: WikiCommons)
Economia russa após quatro anos de guerra

Apesar das previsões iniciais de colapso, a economia russa resistiu. O país redirecionou exportações de energia para mercados asiáticos, ampliou acordos com China e Índia e fortaleceu o comércio com países da Ásia Central.

Entretanto, a inflação pesa no bolso da população. Moradores de Moscou e São Petersburgo relatam aumento expressivo nos preços de alimentos, bebidas e produtos importados. A saída de marcas ocidentais abriu espaço para fabricantes chineses e fornecedores alternativos.

A variedade diminuiu, os preços subiram, mas o consumo continua, especialmente nas grandes metrópoles.

Censura, redes sociais e controle digital

Desde 2022, o Kremlin ampliou restrições à imprensa e bloqueou plataformas como Instagram e Facebook. O uso de VPNs se tornou comum entre jovens russos, enquanto alternativas apoiadas pelo Estado ganharam espaço.

Leis que criminalizam críticas às Forças Armadas dificultam manifestações públicas contra a guerra. Pesquisas apontam apoio majoritário à campanha militar, mas especialistas alertam que o ambiente repressivo pode influenciar respostas.

Apoio à guerra e narrativa oficial

O governo russo sustenta que a ofensiva busca “desnazificar” a Ucrânia, acusando o presidente Volodymyr Zelensky de alinhamento com grupos extremistas, alegação rejeitada por Kiev e aliados.

Ao longo dos quatro anos, a narrativa oficial reforçou o discurso de confronto com o Ocidente, apresentando o conflito como uma batalha existencial contra a expansão da Otan.

Deserções e êxodo de russos

Estimativas indicam que até dois milhões de russos deixaram o país no primeiro ano da guerra, temendo mobilizações ou discordando do governo. Parte retornou por dificuldades de adaptação no exterior.

Casos de deserção também vieram à tona, com soldados relatando choque ao enfrentar a realidade do conflito. Organizações de apoio a desertores operam discretamente fora da Rússia.

Vida nas regiões de fronteira

Enquanto Moscou mantém aparência de normalidade, regiões como Belgorod e Kursk enfrentaram ataques de drones e bombardeios esporádicos. Ainda assim, grande parte da população segue trabalhando e mantendo rotina relativamente estável.

Impacto social e psicológico

Quatro anos depois, o conflito deixou marcas menos visíveis: polarização política, apatia social e adaptação a um estado permanente de tensão. Muitos russos evitam discussões políticas e priorizam estabilidade econômica.

A Rússia de 2026 não é a mesma de 2022. O país enfrenta inflação, restrições civis e isolamento diplomático ampliado. Ainda assim, mantém funcionamento econômico, apoio interno significativo e capacidade militar ativa.

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