Elevação do nível do mar pode afetar 132 milhões de pessoas a mais do que se pensava, aponta estudo

Pesquisa publicada na revista Nature aponta que estudos anteriores subestimaram o número de pessoas em risco de inundações costeiras por usarem medições do nível do mar abaixo das atuais

A elevação do nível do mar pode ameaçar muito mais pessoas do que se imaginava. Um novo estudo científico indica que até 132 milhões de pessoas a mais podem estar na rota de futuras inundações costeiras em comparação com estimativas anteriores. As informações são da NPR.

A pesquisa, publicada na revista Nature, aponta que muitos estudos científicos usaram dados incorretos sobre o nível atual dos oceanos. Segundo os pesquisadores, a maioria das análises considerou níveis do mar cerca de 25 centímetros mais baixos do que os registrados atualmente, o que acabou reduzindo artificialmente as estimativas de risco.

Se o nível do mar subir cerca de 90 centímetros em relação ao período entre 1995 e 2014, cenário considerado possível até meados deste século, o impacto pode ser muito maior do que o projetado até agora. Esse aumento depende, principalmente, da capacidade global de reduzir a queima de combustíveis fósseis, responsável pelas emissões que intensificam o aquecimento do planeta.

Na praia de Cottesloe Beach, em Perth, na Austrália, placas projetam até onde chegará o nível do mar nas próximas duas décadas (Foto: go_greener_oz/Flickr)
Mais áreas sob risco de inundação

Ao revisar centenas de estudos científicos, os pesquisadores descobriram que essa diferença nas medições pode ampliar significativamente a área exposta a inundações. Com dados atualizados, até 37% mais área terrestre poderia ser afetada pela elevação do nível do mar.

Em termos populacionais, isso significaria até 68% mais pessoas expostas aos impactos, o que representa cerca de 132 milhões de indivíduos além das projeções anteriores.

A subestimação é particularmente grande no Sudeste Asiático e na região Indo-Pacífica, onde o nível atual do mar já está mais de 90 centímetros acima do valor usado em muitos estudos científicos.

Por que os cálculos estavam errados

A diferença ocorre principalmente por causa dos modelos utilizados para estimar o nível atual dos oceanos. Muitos pesquisadores usam um modelo gravitacional do planeta chamado geoide, que representa a superfície do oceano em condições ideais e estáveis.

No entanto, esse modelo não considera fatores importantes que influenciam a altura real do mar, como correntes oceânicas, marés e ventos. Esses elementos fazem com que o nível do mar varie de região para região.

Ao utilizar medições reais do nível do oceano, os cientistas conseguiram uma estimativa mais precisa da área que pode ser afetada pela elevação do mar.

Impactos já são sentidos em comunidades costeiras

O nível global do mar já subiu entre 20 e 23 centímetros desde 1880. Esse aumento ocorre principalmente por dois fatores: o derretimento de geleiras e calotas polares e a expansão térmica da água do oceano, que se expande à medida que aquece.

Em várias regiões costeiras, os efeitos já são visíveis. Tempestades e furacões causam inundações mais intensas, enquanto marés altas têm provocado alagamentos mesmo em dias sem chuva.

Além disso, o problema se agrava em regiões onde o solo está afundando gradualmente, como em partes da costa leste dos Estados Unidos e em diversos deltas fluviais ao redor do mundo.

Planejamento local ainda é fundamental

Apesar das novas estimativas globais, especialistas afirmam que o planejamento de adaptação feito por cidades e regiões costeiras não deve sofrer grandes mudanças. Isso porque os governos locais normalmente utilizam medições diretas e dados muito mais detalhados sobre o relevo e o nível do mar em suas próprias regiões.

Esses estudos locais analisam fatores como densidade populacional, infraestrutura existente e medidas de proteção já implementadas, como diques e barreiras naturais.

Com base nessas informações, autoridades podem decidir estratégias de adaptação, que incluem a construção de defesas costeiras, a restauração de áreas naturais como pântanos e manguezais ou até a realocação de comunidades para áreas menos vulneráveis.

Os pesquisadores afirmam que, mesmo que o planejamento local já considere dados mais precisos, compreender o impacto global da elevação do nível do mar é essencial, especialmente para países insulares e nações de baixa altitude que pressionam por medidas mais ambiciosas nas negociações climáticas internacionais.

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