Marinha destruída, estratégia intacta: o Irã ainda ameaça o comércio global no Estreito de Ormuz

Campanha militar dos EUA e de Israel destruiu grande parte da frota naval iraniana, mas táticas de guerra assimétrica, como minas navais, continuam ameaçando uma das rotas de petróleo mais importantes do mundo

A destruição de grande parte da marinha convencional do Irã por forças dos Estados Unidos e de Israel não eliminou a ameaça ao Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais estratégicas do planeta para o transporte de petróleo. As informações são da Radio Free Europe.

Desde 28 de fevereiro, uma campanha de bombardeios conduzida por Washington e aliados atingiu navios de guerra, bases navais e embarcações iranianas. Segundo autoridades militares americanas, cerca de 60 embarcações foram afundadas ou destruídas, incluindo unidades centrais da frota iraniana.

Explosão de mina naval no Mar Báltico (Fotos: WikiCommons)

Mesmo assim, especialistas alertam que o risco para o transporte marítimo continua alto. A razão é que a estratégia naval iraniana não depende apenas de navios de guerra tradicionais, mas de táticas de guerra assimétrica conduzidas principalmente pela Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC, na sigla em inglês), instituição militar oficial da República Islâmica.

Essas unidades operam com lanchas rápidas, drones explosivos e mísseis antinavio posicionados ao longo do Golfo Pérsico, criando um ambiente considerado perigoso demais para muitas companhias de navegação e seguradoras.

Um exemplo recente ocorreu em 11 de março, quando o petroleiro civil tailandês Mayuree Naree foi atingido por projéteis enquanto tentava atravessar o estreito. Imagens da evacuação da tripulação mostraram danos próximos à linha d’água, um padrão típico de ataques realizados por drones de superfície carregados com explosivos.

A importância estratégica do Estreito de Ormuz explica a preocupação internacional. Aproximadamente 20% de todo o petróleo comercializado no mundo passa por esse corredor marítimo estreito, que conecta o Golfo Pérsico ao oceano aberto.

Mesmo com perdas significativas, o Irã mantém capacidade de interferir no tráfego marítimo. Especialistas apontam que o país desenvolveu ao longo de décadas uma doutrina baseada em guerra assimétrica, após aprender que confrontos diretos com grandes potências seriam inviáveis.

Exercícios da frota iraniana em 2019

Essa mudança começou após a Operação Praying Mantis, em 1988, quando a Marinha dos EUA destruiu grande parte da frota iraniana em um único dia durante confrontos no Golfo.

Desde então, Teerã passou a investir em meios mais baratos e difíceis de neutralizar, como minas navais, submarinos de pequeno porte e embarcações rápidas capazes de atacar navios maiores.

Além disso, instalações subterrâneas ao longo da costa e em ilhas estratégicas do Golfo Pérsico abrigariam lanchas e drones marítimos que podem ser mobilizados rapidamente para operações de ataque ou assédio.

Segundo analistas militares, o principal alvo dessas operações não seriam navios de guerra americanos, mas embarcações comerciais que transportam petróleo e mercadorias.

Isso ocorre porque ataques contra cargueiros e petroleiros podem provocar impactos econômicos globais imediatos, elevando preços da energia e pressionando cadeias de abastecimento internacionais.

Para muitos especialistas, essa estratégia mantém o Estreito de Ormuz como um dos pontos mais sensíveis da geopolítica mundial, mesmo depois de a marinha convencional iraniana ter sido praticamente destruída.

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