Da construção civil ao colapso ambiental: o lado oculto da crise global da areia

Relatório da ONU alerta que o consumo mundial de areia ultrapassa a capacidade natural de reposição e já provoca impactos ambientais, sociais e econômicos em países vulneráveis

A areia é o material sólido mais extraído do planeta. E também um dos menos discutidos. Essencial para a construção civil, produção de concreto, fabricação de vidro, chips de silício e painéis solares, o recurso está sendo consumido em uma velocidade superior à sua capacidade natural de reposição, segundo um novo relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). As informações são do The Guardian.

De acordo com a ONU, o mundo utiliza cerca de 50 bilhões de toneladas de areia por ano, impulsionado pelo crescimento urbano, obras de infraestrutura e expansão industrial. O problema é que a retirada desenfreada do material já provoca danos ambientais considerados irreversíveis em diferentes regiões do planeta.

Entre os casos citados pelo relatório está o das Maldivas, país insular ameaçado pela elevação do nível do mar. Para ampliar áreas habitáveis na capital Malé, o governo promoveu um gigantesco projeto de recuperação territorial com areia dragada do fundo do oceano.

Malé, capital das Maldivas (Foto: WikiCommons)

A iniciativa, porém, teve consequências severas. Segundo o PNUMA, cerca de 200 hectares de recifes de coral e habitats marinhos foram destruídos durante o processo, incluindo áreas marinhas protegidas. O impacto ameaça espécies marinhas, atividades pesqueiras e o turismo, um dos pilares da economia local.

“A areia é nossa primeira linha de defesa contra a subida do nível do mar, tempestades costeiras e a salinização dos aquíferos”, afirmou Pascal Peduzzi, diretor do banco de dados de recursos globais do PNUMA e responsável pelo relatório.

Além das Maldivas, o documento aponta danos registrados nas Filipinas e na Indonésia. Em Manila, a retirada de areia para um projeto aeroportuário alterou o fundo da baía e afetou comunidades pesqueiras. Já em Sulawesi do Sul, na Indonésia, pescadores tiveram queda de até 80% na renda após operações de dragagem em áreas de pesca.

Especialistas alertam que a areia desempenha funções ambientais essenciais quando permanece em seu ambiente natural. Ela ajuda a regular rios, proteger aquíferos costeiros, filtrar água e sustentar a biodiversidade.

O relatório defende mudanças urgentes nos modelos de governança ambiental, com maior fiscalização, monitoramento e transparência em projetos de extração. A ONU também pede que governos identifiquem áreas de alto valor ecológico antes de autorizar novas operações de dragagem.

Nas Maldivas, mais de 80% do território está situado a menos de um metro acima do nível do mar, tornando o país um dos mais vulneráveis às mudanças climáticas. Apesar disso, especialistas alertam que soluções baseadas em extração massiva de areia podem criar novos problemas ambientais e urbanos no futuro.

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