A pandemia de Covid-19 representou um dos períodos mais difíceis da história recente da Coreia do Norte. No entanto, segundo uma extensa reportagem publicada pelo The New York Times, o líder Kim Jong-un transformou a crise em uma oportunidade para ampliar seu controle sobre o país, fortalecer o aparato estatal e impulsionar a economia por meio de uma aproximação estratégica com a Rússia.
De acordo com a publicação, Kim utilizou as restrições impostas durante a pandemia para endurecer o controle das fronteiras, combater o contrabando e enfraquecer os mercados informais que haviam ganhado importância após a grande fome dos anos 1990. A medida aumentou a dependência da população em relação ao Estado e reforçou o monopólio do regime sobre a economia e a circulação de informações.

A reportagem também destaca o endurecimento da repressão contra conteúdos estrangeiros, especialmente produções sul-coreanas. Autoridades norte-coreanas passaram a aplicar punições severas contra cidadãos flagrados consumindo ou distribuindo músicas, séries e filmes vindos do exterior.
Enquanto ampliava o controle interno, Kim Jong-un deu continuidade ao desenvolvimento do programa nuclear norte-coreano. O país investiu em novos sistemas de mísseis capazes de atingir a Coreia do Sul, o Japão e, potencialmente, o território continental dos Estados Unidos.
Parceria com a Rússia
Outro fator apontado como decisivo para a recuperação econômica da Coreia do Norte foi a aproximação com a Rússia após o início da guerra na Ucrânia.
Segundo o levantamento, Pyongyang forneceu munições, equipamentos militares e soldados para auxiliar Moscou no conflito. Em troca, recebeu apoio econômico, petróleo, alimentos e tecnologia militar. A cooperação também resultou em um tratado de defesa mútua entre os dois países.
Especialistas citados pelo jornal afirmam que a parceria ajudou a reduzir parte do isolamento internacional enfrentado pela Coreia do Norte e contribuiu para modernizar setores das Forças Armadas norte-coreanas.
Economia mostra sinais de recuperação
Apesar da continuidade das sanções internacionais e das dificuldades econômicas enfrentadas pela população, a reportagem aponta sinais recentes de recuperação.
Dados do Banco da Coreia, da Coreia do Sul, indicam que a economia norte-coreana cresceu 3,7% em 2024, o melhor desempenho em oito anos. O governo também concluiu projetos de infraestrutura que estavam paralisados há anos, incluindo novos conjuntos habitacionais, estufas agrícolas, áreas turísticas e empreendimentos voltados ao lazer.
Analistas observam ainda aumento da circulação de veículos, expansão do comércio com a China e melhorias na oferta de energia em algumas regiões urbanas, especialmente em Pyongyang.
Desafios permanecem
Apesar dos avanços apresentados pelo regime, especialistas alertam que a Coreia do Norte continua enfrentando problemas estruturais. A pobreza permanece significativa fora da capital, a moeda local perdeu valor nos últimos anos e os preços de alimentos básicos registraram forte alta.
Ainda assim, observadores internacionais avaliam que Kim Jong-un vive atualmente o momento de maior estabilidade política desde que assumiu o poder em 2011, consolidando sua posição tanto no cenário doméstico quanto no contexto geopolítico internacional.