Por que países africanos estão recusando bilhões de dólares oferecidos pelos EUA

Nova política de saúde internacional do governo Trump enfrenta resistência em países africanos que criticam condições ligadas ao compartilhamento de dados, acesso a recursos naturais e benefícios para empresas americanas

A nova estratégia de ajuda internacional dos Estados Unidos para a área da saúde está encontrando resistência em parte da África. Apesar da oferta de bilhões de dólares para fortalecer sistemas de saúde e combater doenças, países como Gana, Zâmbia e Zimbábue recusaram ou questionaram acordos propostos pelo governo de Donald Trump. O motivo principal está nas condições impostas por Washington, que incluem compartilhamento de dados de saúde, acesso a informações biológicas e a vinculação dos investimentos a interesses estratégicos e comerciais dos EUA. As informações são da BBC.

Após encerrar as operações da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), a administração Trump lançou um novo modelo de cooperação baseado em acordos bilaterais diretos com governos nacionais. A proposta exige que os países beneficiados aumentem seus próprios investimentos em saúde, reduzindo a dependência de organizações não governamentais e de organismos multilaterais. O maior exemplo é o acordo firmado com o Quênia, que prevê um investimento total de US$ 2,45 bilhões ao longo de cinco anos, sendo US$ 1,6 bilhão dos Estados Unidos e US$ 850 milhões do governo queniano.

Reservista da Marinha dos EUA examina os pulmões de um menino ganês enquanto sua mãe acompanha o atendimento (Foto: WikiCommons)

A mudança representa uma ruptura com o modelo tradicional de cooperação internacional apoiado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), da qual os Estados Unidos se retiraram em 2026. O governo americano argumenta que os novos acordos permitem maior eficiência e fortalecem a capacidade dos países de administrar seus próprios sistemas de saúde. Ao mesmo tempo, os documentos estabelecem prioridade para empresas farmacêuticas e de tecnologia médica dos EUA no desenvolvimento e fornecimento de tratamentos.

A exigência de compartilhamento de dados médicos e amostras biológicas foi um dos pontos que mais geraram controvérsia. Autoridades de Gana afirmaram que o acordo oferecido não garantia proteção adequada às informações de pacientes nem à soberania dos dados nacionais. O Zimbábue também manifestou preocupação com o envio de patógenos e material biológico sem garantias de acesso futuro a vacinas ou medicamentos eventualmente desenvolvidos a partir dessas pesquisas.

Na Zâmbia, as críticas se concentraram na tentativa de associar os acordos de saúde a negociações envolvendo minerais estratégicos. O governo zambiano afirmou que Washington buscava condições preferenciais de acesso a recursos considerados essenciais para a economia global, como lítio, cobre e outros minerais críticos utilizados na indústria tecnológica.

As preocupações africanas ganharam força após as experiências da pandemia de Covid-19. Diversos países do continente contribuíram com dados científicos e monitoramento epidemiológico, mas enfrentaram dificuldades para obter vacinas durante os momentos mais críticos da crise sanitária. Para especialistas e organizações da sociedade civil, o novo modelo americano reforça uma relação baseada em interesses estratégicos, e não em cooperação internacional equilibrada.

O debate também foi intensificado pelo recente surto de Ebola na República Democrática do Congo. Organizações humanitárias afirmam que os cortes promovidos após o fechamento da USAID reduziram a capacidade de resposta rápida ao avanço da doença. Segundo entidades que atuam no país, a falta de pessoal e de estoques emergenciais atrasou ações de contenção nas primeiras semanas da crise. O governo americano contesta as críticas e destaca que destinou US$ 270 milhões para o combate ao surto.

Enquanto alguns analistas defendem que a nova estratégia pode incentivar maior autonomia financeira dos países africanos, outros alertam que problemas de saúde pública ultrapassam fronteiras e exigem coordenação internacional. Com a adesão de alguns governos e a rejeição de outros, o futuro da política global de saúde dos Estados Unidos ainda permanece incerto.

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