Bananas, cocaína e Putin: investigação revela conexões entre gigante do transporte marítimo e aliados do Kremlin

Reportagem aponta ligações entre a maior operadora mundial de navios frigoríficos, empresários próximos ao círculo de Putin e uma série de apreensões milionárias de cocaína em embarcações que transportavam bananas para a Rússia

Apreensões recordes de cocaína em navios que transportavam bananas do Equador para a Rússia levaram uma investigação a identificar conexões entre empresários do setor marítimo e pessoas ligadas ao círculo de poder do presidente russo Vladimir Putin. A apuração, publicada pela Systema, unidade investigativa da Radio Free Europe (RFE/RL), reúne documentos corporativos, registros públicos e declarações oficiais para traçar a rede de relações envolvendo a Cool Carriers, considerada a maior operadora mundial de navios frigoríficos.

O caso ganhou notoriedade após autoridades russas anunciarem, em agosto de 2025, a apreensão de aproximadamente 1,5 tonelada de cocaína escondida em um carregamento de bananas transportado pelo navio Cool Emerald, que havia acabado de chegar ao porto de São Petersburgo. Segundo a alfândega, a carga ilícita estava avaliada em cerca de 20 bilhões de rublos, o equivalente a aproximadamente US$ 257 milhões.

A investigação destaca que esse não foi um episódio isolado. Nos últimos anos, outras embarcações operadas comercialmente pela Cool Carriers estiveram envolvidas em grandes apreensões de cocaína em diferentes países europeus. Em 2023, autoridades britânicas encontraram 137 quilos da droga presos ao casco do navio Cool Express. No ano seguinte, a alfândega russa apreendeu outros 60 quilos na mesma embarcação, enquanto mais de 575 quilos foram localizados na costa da Dinamarca após terem sido lançados ao mar.

Navio Cool Emerald (Foto: Cool Carriers/Reprodução Instagram)
Empresa nega

A Cool Carriers afirma que não possui qualquer relação com o tráfico internacional de drogas e sustenta que apenas realiza a operação comercial das embarcações, sem controlar suas atividades operacionais, o recrutamento das tripulações ou os procedimentos de carga e descarga.

Segundo a empresa, essas responsabilidades pertencem aos proprietários dos navios, e organizações criminosas sul-americanas costumam explorar vulnerabilidades na cadeia logística para utilizar embarcações comerciais no transporte de cocaína.

Conexões com aliados de Putin

Embora não apresente evidências de participação da empresa no tráfico de drogas, a investigação chama atenção para os vínculos empresariais de seu diretor e proprietário, Mikhail Ganyushin, e do empresário Vladimir Borisenko com pessoas historicamente próximas de Vladimir Putin.

Entre elas aparecem o empresário Oleg Rudnov, considerado um antigo aliado do presidente russo, além do ex-vice-primeiro-ministro Ilya Klebanov e empresários ligados ao Terminal MGS, estrutura responsável por movimentar a maior parte das bananas importadas pela Rússia por meio do porto de São Petersburgo.

A apuração também identifica possíveis conexões indiretas com integrantes da cooperativa Ozero, grupo formado na década de 1990 por Putin e aliados que mais tarde ocupariam posições estratégicas na política e na economia russa, incluindo o banqueiro Yuri Kovalchuk e os irmãos Andrei e Sergei Fursenko.

Porto de São Petersburgo concentra entrada de bananas

Segundo dados reunidos pela investigação, a Rússia importou cerca de 1,4 milhão de toneladas de bananas em 2025. Desse total, aproximadamente 1,24 milhão de toneladas passaram pelo porto de São Petersburgo.

O Terminal MGS é apontado como um dos principais centros logísticos dessa operação. Em entrevista concedida em 2024, o diretor da empresa afirmou que a Baltic Shipping respondia por cerca de dois terços das bananas distribuídas ao mercado russo.

Tráfico internacional

A reportagem relembra que São Petersburgo se tornou uma importante rota do tráfico internacional de cocaína logo após o fim da União Soviética.

Segundo a investigação, ainda no início da década de 1990, o cartel colombiano de Cali passou a utilizar o porto da cidade como ponto de transbordo para carregamentos destinados à Europa. O período coincide com os primeiros anos da carreira política de Putin na administração municipal de São Petersburgo.

O texto também cita episódios envolvendo o antigo empresário Vladimir Kekhman, conhecido como o “Rei da Banana”, cuja empresa teve um navio ligado à apreensão de 120 quilos de cocaína em 2010. Na época, Kekhman negou qualquer envolvimento.

Empresa diz que cartéis exploram vulnerabilidades

Em resposta à investigação, a Cool Carriers reiterou que cartéis sul-americanos procuram infiltrar integrantes em operações portuárias por meio de subornos, intimidação e violência para inserir carregamentos de drogas em navios comerciais.

A companhia afirma que atua em diversos continentes transportando produtos perecíveis e diz não ser alvo de qualquer investigação criminal em nenhuma jurisdição.

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