A nova mina de ouro do crime: cartéis avançam sobre lítio, cobalto e terras raras

Relatórios internacionais apontam que a explosão da demanda por lítio, cobalto e terras raras abriu espaço para contrabando, corrupção e mineração ilegal em dezenas de países

Por André Amaral

A transição energética é frequentemente apresentada como uma disputa entre grandes potências pelo controle das matérias-primas que abastecerão a economia do futuro. Mas uma ameaça menos visível começa a preocupar governos, empresas e organismos internacionais: o avanço do crime organizado sobre a cadeia global de minerais críticos.

Impulsionada pela expansão dos veículos elétricos, baterias, painéis solares e tecnologias de energia renovável, a demanda por minerais como lítio, cobalto, níquel e terras raras cresceu rapidamente nos últimos anos. Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), esses recursos serão cada vez mais estratégicos para a economia global nas próximas décadas.

O aumento do valor desses minerais, porém, está criando oportunidades para redes criminosas internacionais.

Mineração artesanal de cobalto na RDC (Foto: IIED/Flickr)

Um relatório da Global Initiative Against Transnational Organized Crime alerta que organizações criminosas estão ampliando sua presença em cadeias de suprimentos de minerais críticos por meio de mineração ilegal, contrabando, corrupção e lavagem de dinheiro. A entidade afirma que a segurança dessas cadeias pode se tornar um dos principais desafios geopolíticos dos próximos anos.

De acordo com o levantamento, 73 países registraram níveis significativos ou severos de criminalidade associada à exploração de recursos minerais não renováveis. O dado sugere que a disputa pelos insumos da transição energética já ultrapassou governos e empresas, atraindo também grupos envolvidos em atividades ilícitas.

A preocupação também aparece em documentos das Nações Unidas. Um estudo publicado pelo Instituto Interregional das Nações Unidas para Pesquisa sobre Crime e Justiça (UNICRI) identificou uma série de vulnerabilidades nas cadeias de suprimento de minerais críticos, especialmente em regiões onde a fiscalização estatal é limitada.

Segundo o relatório, organizações criminosas vêm explorando falhas regulatórias para atuar em mineração clandestina, falsificação de certificados de origem, evasão fiscal, corrupção de agentes públicos e lavagem de dinheiro. Essas práticas dificultam a rastreabilidade dos minerais e permitem que produtos extraídos ilegalmente entrem no comércio internacional como mercadorias legítimas.

Terras raras entram na mira dos contrabandistas

O problema ganhou dimensão geopolítica em 2026. Em junho, a China anunciou a criação de uma linha nacional de denúncias voltada ao combate ao contrabando de minerais estratégicos, especialmente terras raras, um grupo de elementos essenciais para semicondutores, inteligência artificial, equipamentos militares e veículos elétricos, noticiou a Reuters.

A medida ocorreu em meio ao endurecimento dos controles chineses sobre exportações desses materiais. A preocupação de Beijing reflete o crescente valor econômico e estratégico das terras raras, cuja produção e processamento continuam amplamente concentrados no país asiático.

China é líder global na produção e controle de metais de terras raras, que desempenham papel crucial em tecnologias de ponta, como eletrônicos e energias renováveis (Foto: Terence Wright/Flickr)

Para especialistas em segurança econômica, o cenário cria um ambiente favorável para operações clandestinas e redes internacionais de contrabando interessadas em contornar restrições comerciais e lucrar com a escassez desses recursos.

Risco também preocupa bancos e investidores

O avanço da mineração ilegal já começou a preocupar o setor financeiro.

Uma pesquisa divulgada pela Reuters mostrou que cerca de 40% das instituições financeiras avaliadas não realizam verificações adequadas sobre riscos ligados à mineração ilegal antes de conceder financiamentos ou realizar investimentos no setor mineral.

A consequência é que minerais extraídos de forma irregular podem acabar integrando cadeias produtivas globais aparentemente legítimas, chegando a fabricantes de baterias, montadoras de veículos elétricos e empresas de tecnologia sem que sua origem seja plenamente identificada.

Onde o crime organizado já está infiltrado na cadeia dos minerais críticos

Embora o fenômeno seja global, alguns países se tornaram pontos de atenção para governos, agências internacionais e pesquisadores por concentrarem reservas estratégicas e apresentarem fragilidades regulatórias que facilitam a atuação de grupos criminosos.

República Democrática do Congo: o epicentro da preocupação

A República Democrática do Congo concentra algumas das maiores reservas mundiais de cobalto, cobre, coltan e outros minerais estratégicos. Relatórios da ONU e da Reuters apontam que grupos armados e redes de contrabando atuam há anos no leste do país, financiando conflitos por meio do comércio ilegal desses recursos.

Em 2025, um relatório das Nações Unidas revelou que minerais extraídos em áreas controladas pelo grupo rebelde M23 estavam sendo contrabandeados para países vizinhos e posteriormente inseridos nas cadeias globais de suprimentos.

Local de mineração artesanal de cobalto de propriedade da Gécamines, no Congo (Foto: Fairphone/Flickr)
Mianmar: mineração ilegal e grupos armados

Mianmar é um dos maiores produtores mundiais de terras raras utilizadas em ímãs permanentes, veículos elétricos e equipamentos eletrônicos.

Após o golpe militar de 2021, diversas áreas de mineração passaram a operar sob controle de milícias, grupos armados e redes de contrabando que abastecem principalmente o mercado chinês, segundo a ONU.

Governança se torna desafio estratégico

A preocupação levou governos do G7 a anunciar, em junho, uma nova aliança para fortalecer a segurança das cadeias globais de minerais críticos. O objetivo é reduzir vulnerabilidades econômicas e ampliar mecanismos de monitoramento e cooperação internacional, detalhou a Reuters.

A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e o Fórum Econômico Mundial também vêm alertando para a necessidade de aumentar a transparência e a rastreabilidade no setor mineral, especialmente diante da expansão acelerada da demanda global.

A disputa pelos minerais críticos costuma ser retratada como uma competição entre China, Estados Unidos e Europa. No entanto, relatórios recentes indicam que uma terceira força vem se beneficiando dessa corrida: o crime organizado transnacional.

À medida que lítio, cobalto, níquel e terras raras se tornam ativos cada vez mais valiosos para a economia verde, governos enfrentam um desafio que vai além da produção e do abastecimento. A questão agora é garantir que os recursos responsáveis por impulsionar a transição energética não acabem fortalecendo mercados ilícitos globais.

Tags: