A China intensificou sua atuação diplomática para tentar reduzir as tensões entre o Paquistão e o Taleban afegão, em um movimento motivado tanto pela segurança regional quanto pela proteção de interesses econômicos estratégicos. Com cerca de US$ 65 bilhões investidos no Corredor Econômico China-Paquistão (CPEC) e crescente interesse nos recursos minerais do Afeganistão, Beijing busca evitar que o conflito entre os dois vizinhos comprometa seus projetos de longo prazo na região. As informações são da Radio Free Europe.
Nas últimas semanas, o enviado especial chinês para assuntos afegãos, Yue Xiaoyong, visitou Cabul, Doha e Islamabad para avançar em negociações iniciadas em abril, na cidade chinesa de Urumqi. As conversas ocorreram após meses de confrontos entre forças paquistanesas e o Taleban, que chegaram a levantar temores de uma guerra aberta. Islamabad acusa o governo afegão de permitir a atuação do Tehrik-e Taliban Pakistan (TTP), popularmente conhecido como Taleban do Paquistão em território afegão, enquanto o Taleban nega as acusações e afirma não permitir que seu território seja utilizado para ameaçar outros países.

Analistas apontam que a instabilidade na fronteira afegã-paquistanesa representa uma ameaça direta aos interesses chineses. Além dos riscos para os investimentos, Beijing teme que grupos extremistas como o Movimento Islâmico do Turquestão Oriental (ETIM) e o Estado Islâmico-Khorasan (EI-K) aproveitem o cenário de insegurança para ampliar suas atividades. A presença de militantes uigures ligados ao ETIM no Afeganistão é considerada uma preocupação particular para o governo chinês devido às implicações para a segurança da região de Xinjiang.
A escolha de Urumqi, capital de Xinjiang, como sede das negociações entre representantes paquistaneses e afegãos foi interpretada por especialistas como um sinal claro dos interesses estratégicos da China. Segundo pesquisadores ouvidos pela reportagem, Beijing vê a estabilidade regional como condição indispensável para a continuidade dos projetos de infraestrutura e para o acesso às vastas reservas afegãs de minerais, incluindo ouro, petróleo, níquel e terras raras como o lítio.
Os riscos para a China não são apenas econômicos. Nos últimos anos, cidadãos chineses passaram a ser alvo frequente de grupos armados na região. Em janeiro de 2026, um atentado suicida contra um café frequentado por chineses em Cabul matou seis pessoas, incluindo um cidadão da China. O ataque foi reivindicado pelo EI-K, organização que também tem utilizado a oposição às políticas chinesas em relação aos uigures como justificativa para suas ações.
Observadores afirmam que a mediação entre Paquistão e Taleban representa uma oportunidade para a China ampliar sua influência diplomática em uma região historicamente marcada pela atuação de potências ocidentais e atores regionais como Turquia e Catar. Antes da entrada mais ativa de Beijing, ambos os países já haviam participado de negociações mediadas por Doha e Ancara, mas os acordos de cessar-fogo alcançados não resistiram por muito tempo.
Desde as negociações realizadas em Urumqi, um cessar-fogo permanece em vigor entre as partes. Embora especialistas considerem o acordo frágil, há expectativa de que a influência chinesa e o interesse do Taleban em atrair investimentos estrangeiros possam contribuir para uma trégua mais duradoura.
Para Beijing, o sucesso da mediação vai além da estabilidade imediata: o objetivo é preservar corredores comerciais, proteger projetos estratégicos e impedir que grupos extremistas ampliem sua capacidade de atuação em uma região considerada vital para os planos chineses de integração econômica da Eurásia.