Inflação cai, mas a revolta cresce: o alerta que vem da Argentina e do Sri Lanka

Reformas fiscais, queda da inflação e acordos com credores ajudam países a recuperar a estabilidade, mas o custo de vida elevado, a perda de renda e o desemprego mantêm a pressão sobre governos

A melhora de indicadores econômicos nem sempre se traduz em alívio para a população. Em diferentes países, governos que conseguiram reduzir a inflação, reorganizar as contas públicas ou retomar o acesso ao crédito continuam enfrentando descontentamento social. O problema é que a recuperação dos números nem sempre acompanha a experiência cotidiana de quem precisa pagar aluguel, comprar alimentos e manter o emprego.

Na Argentina, no Sri Lanka e em outras economias emergentes, esse descompasso pressiona governos que adotaram medidas de ajuste para enfrentar crises fiscais e financeiras. Embora as situações nacionais sejam diferentes, elas compartilham um desafio: convencer a população de que os sacrifícios exigidos hoje produzirão benefícios concretos no futuro. As informações são da Reuters.

Agricultora trabalha em uma plantação no Sri Lanka, país do sul da Ásia (Foto: André Amaral/A Referência)
Argentina sob pressão

O presidente argentino Javier Milei transformou o combate à inflação e a redução dos gastos públicos em prioridades de seu governo. O programa econômico ajudou a desacelerar a alta dos preços e a melhorar alguns indicadores fiscais, mas também provocou impactos sobre a renda, o consumo e a atividade de setores da economia.

A inflação, que havia se aproximado de 300% em termos anuais no início de 2024, caiu significativamente. A desaceleração, porém, não significa que os preços tenham voltado aos níveis anteriores. Para famílias que perderam poder de compra durante a crise, a redução do ritmo de aumentos não recompõe automaticamente a renda.

A economia argentina também enfrenta dificuldades relacionadas ao consumo interno, ao emprego e à sobrevivência de empresas. Enquanto setores ligados à energia e à mineração encontram oportunidades de expansão, parte da indústria e do comércio sofre com a demanda enfraquecida.

A situação coloca em discussão a sustentabilidade política do programa de Milei. A estabilidade fiscal e a confiança dos investidores são objetivos relevantes, mas sua continuidade depende também da capacidade de produzir resultados percebidos pela população. A crise argentina e seus efeitos sobre o apoio ao presidente foram abordados em reportagem da Agência Brasil sobre os desafios econômicos e políticos do governo Milei.

Manifestação em Santa Fé, na Argentina, em 2026 (Foto: WikiCommons)
A lição do Sri Lanka

No Sri Lanka, a crise econômica de 2022 mostrou como desequilíbrios fiscais, escassez de divisas e decisões políticas podem desencadear uma ruptura social. A falta de combustível, alimentos e medicamentos, somada aos cortes de energia, levou milhares de pessoas às ruas e contribuiu para a queda do então presidente Gotabaya Rajapaksa.

O país suspendeu pagamentos de sua dívida externa e buscou apoio do Fundo Monetário Internacional (FMI). A reorganização econômica exigiu medidas difíceis, em um contexto no qual a população já enfrentava uma deterioração acentuada das condições de vida.

A crise também revelou que a recuperação financeira não resolve, por si só, problemas de confiança nas instituições. O pagamento de dívidas, a recomposição das reservas internacionais e a estabilização da moeda são etapas importantes, mas podem conviver com pobreza, insegurança alimentar e insatisfação com a condução política.

O episódio foi detalhado pelo A Referência na reportagem “Crise econômica do Sri Lanka requer atenção global imediata, dizem especialistas”. O caso continua relevante para compreender os riscos de programas de ajuste implementados em sociedades já pressionadas por uma crise prolongada.

Jovens e desigualdade

A insatisfação econômica também se manifesta entre os jovens, especialmente em países nos quais o crescimento não se traduz em empregos de qualidade e oportunidades de ascensão social.

No Sul da Ásia, manifestações lideradas por integrantes da Geração Z têm questionado elites políticas e instituições. Desemprego, desigualdade, corrupção e falta de perspectivas aparecem entre os fatores que alimentam a mobilização.

A Referência abordou esse movimento em reportagem sobre a Geração Z e a contestação das elites no Sul da Ásia. Embora as causas variem de um país para outro, os protestos mostram que a insatisfação não depende apenas de uma recessão ou de uma crise cambial. Ela também pode crescer quando a população considera que as oportunidades e os benefícios do desenvolvimento estão concentrados em poucos grupos.

As redes sociais ampliam a capacidade de organização e divulgação dessas mobilizações. Ao mesmo tempo, a rapidez com que denúncias e reivindicações circulam dificulta a resposta de governos que tentam conter a insatisfação sem alterar suas políticas.

O desafio dos governos

A pressão sobre essas economias envolve uma contradição: medidas que melhoram os indicadores macroeconômicos podem impor custos imediatos a trabalhadores, consumidores e pequenos empresários. Cortes de subsídios, mudanças tributárias, redução de despesas públicas e flexibilização de regras podem contribuir para reorganizar as contas, mas também encarecer serviços e reduzir a renda disponível.

O FMI e outros credores costumam defender reformas destinadas a estabilizar as finanças públicas e criar condições para o crescimento. Governos, por sua vez, precisam equilibrar essas exigências com as demandas sociais e com a manutenção de apoio político.

Isso não significa que a disciplina fiscal ou o combate à inflação sejam irrelevantes. Significa que esses resultados, isoladamente, não bastam para garantir uma recuperação duradoura. A geração de empregos, o crescimento da renda real e o acesso a serviços essenciais também influenciam a percepção da população sobre o desempenho econômico.

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