A crise da pesca no Senegal ganhou dimensão internacional após denúncias sobre a atuação de embarcações estrangeiras, principalmente chinesas, acusadas de acelerar o colapso dos estoques pesqueiros no país africano. O avanço da pesca ilegal, não declarada e não regulamentada (IUU, da sigla em inglês) vem afetando diretamente a economia local, a segurança alimentar e a sobrevivência de milhares de famílias que dependem do mar. As informações são da Eurasia Review.
Nos últimos 15 anos, pescadores artesanais senegaleses relatam uma queda drástica na quantidade de peixes encontrados nas águas do país. Espécies populares, como sardinhas e carapaus, tornaram-se cada vez mais escassas devido à atividade intensa de arrastões industriais estrangeiros.
A situação impacta diretamente mais de 1,3 milhão de pessoas ligadas ao setor pesqueiro no Senegal, entre pescadores, comerciantes, processadores de pescado e trabalhadores portuários.

Perdas bilionárias
Segundo dados da Coalizão para a Transparência Financeira, a África Ocidental concentra cerca de 40% dos arrastões ilegais do mundo. Apenas o Senegal perde quase US$ 300 milhões por ano com a pesca ilegal, enquanto o prejuízo regional chega a aproximadamente US$ 10 bilhões anuais.
A China, dona da maior frota pesqueira de águas distantes do planeta, aparece frequentemente no centro das denúncias envolvendo pesca predatória e irregular. O Índice de Risco de Pesca IUU aponta o país como líder global em práticas ilegais no setor.
Entre as atividades denunciadas estão: pesca de arrasto de fundo, uso de redes proibidas, pesca com explosivos, transbordo ilegal em alto-mar e uso de “bandeiras de conveniência” para driblar regras locais.
A pesca de arrasto de fundo é considerada uma das práticas mais destrutivas para os oceanos, pois remove indiscriminadamente espécies marinhas e destrói ecossistemas essenciais para a reprodução dos peixes.
Comunidades costeiras enfrentam crise social
A redução dos estoques pesqueiros vem provocando desemprego, pobreza e aumento da migração irregular. Muitos jovens deixam comunidades costeiras em busca de oportunidades na Europa.
Em cidades como Rufisque e Joal-Fadiouth, pescadores relatam que hoje levam até sete meses para capturar a mesma quantidade de peixe que antes conseguiam em apenas dois meses.
Além do impacto econômico, a escassez de pescado também afeta a alimentação da população local, já que o peixe é uma das principais fontes de proteína no Senegal.
Tecnologia contra o avanço ilegal
Nos últimos anos, o Senegal intensificou medidas de monitoramento marítimo para combater a pesca ilegal. O país passou a divulgar listas de embarcações autorizadas a operar em águas nacionais e ampliou mecanismos de transparência no setor pesqueiro.
Ferramentas como radares de satélite, rastreadores e smartphones utilizados por pescadores também vêm ajudando na identificação de embarcações suspeitas.
Em março de 2026, Senegal e Espanha assinaram um acordo de cooperação voltado ao combate à pesca ilegal, com foco em fiscalização, rastreabilidade e fortalecimento da governança marítima.
Especialistas alertam, porém, que sem fiscalização efetiva e cooperação internacional, a pressão sobre os recursos marinhos da África Ocidental continuará aumentando nos próximos anos.