Com altos salários, grupo mercenário russo recruta para ir ao Mali e veta ucranianos

Wagner Group foi contratado pelo governo do Mali e já está em presente no país africano, o que tem gerado protestos de aliados como a França
Share on facebook
Share on twitter
Share on whatsapp
Share on linkedin
Share on email

Os mercenários do Wagner Group, uma organização paramilitar privada da Rússia, já estão presentes no Mali, a serviço do governo local. Antes de enviar todo o contingente ao país africano, o grupo iniciou um processo de recrutamento para contar com novos membros no campo de treinamento de Mokino, no distrito russo de Krasnodar. As informações são da rede britânica BBC, em seu serviço russo de notícias,

O recrutamento vale para todo os tipos de militares, bem como para profissionais de outras áreas. Entre eles, médicos e cirurgiões, engenheiros, cozinheiros, motoristas e tradutores de francês. Os profissionais podem ter entre 23 e 45 anos, sem doenças graves nem condenação criminal prévia. Não são aceitos cidadãos das ex-Repúblicas soviéticas da Geórgia e da Ucrânia, nem mesmo os nascidos na região da Crimeia anexada pela Rússia.

Esse detalhe, em particular, tem gerado indignação entre combatentes na Crimeia, onde grupos rebeldes combatem as forças do governo da Ucrânia com o suporte de Moscou. A insatisfação dos combatentes pró-Rússia na Crimeia, muitos com nacionalidade ucraniana, se justifica pelo alto salário pago pelo Wagner. Um membro recebe inicialmente 150 mil rublos mensais (cerca de R$ 11 mil), mas a maioria tem vencimentos bem superiores.

A contratação dos mercenários, cujo contrato é avaliado em 9,1 milhões de euros (R$ 57 milhões), incomoda especialmente os franceses. “Wagner é uma milícia notória na Síria e na República Centro-Africana por ter cometido abusos e todos os tipos de violações que não correspondem a nenhum solução, e por isso é incompatível com a nossa presença”, disse oministro das Relações Exteriores francês, Jean-Yves Le Drian há duas semanas.

Grupo russo de mercenários recruta novos membros para o Mali e proíbe ucranianos
Assimi Goita, coronel que governa o Mali (Foto: reprodução/twitter.com/PresidenceMali)

A Estônia, outra ex-República soviética, também reprova a parceira. De acordo com o ministro da Defesa da Estônia, Kalle Laanet, soldados estonianos deixarão o Mali se a cooperação com os mercenários for oficializada.

Fato é que a presença do Wagner no Mali não é mais segredo. O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, confirmou a informação, embora sem citar nominalmente o grupo mercenário. E culpou Paris. “Eles (governo do Mali) recorreram a uma empresa militar privada da Rússia porque, pelo que entendi, a França quer reduzir significativamente seu contingente militar, que tinha, como todos sabem, a missão de combater terroristas”.

Presença francesa

O presidente francês Emmanuel Macron declarou recentemente que o envio de mais de 4 mil soldados franceses para o Mali sofreria acentuada redução, ao mesmo tempo em que os remanescentes seriam integrados a uma missão internacional mais ampla. As forças têm lutado para conter a expansão do território reivindicado por grupos ligados ao Estado Islâmico (EI) e à Al-Qaeda.

Em julho, Macron anunciou o fechamento de três bases militares no norte do Mali, o que ocorreria até o final de 2021, e deu início ao processo de retirada de tropas do país. “Esses fechamentos começarão no segundo semestre de 2021 e serão concluídos no início de 2022”, disse ele à época.

A decisão da França de reduzir o número de tropas no Mali divide a população local. Enquanto uma parte acredita que os soldados fazem um grande serviço de segurança, outros acham que os franceses não conseguiram fazer o que deveriam e é hora de irem embora.

As forças francesas estão no Mali desde 2013, reforçando a luta contra grupos jihadistas no norte do país. Desde então, mais de 50 soldados franceses morreram em combate ou ataques terroristas.

Soldados franceses da Operação Barkhane conversam com cidadão do Mali (Foto: Wikimedia Commons)

Aproximação russa

Se a França enxerga o acordo entre Mali e Wagner como um problema, Moscou o vê como algo bastante favorável, pois aumentaria seu prestígio e sua influência globais. Oficialmente, porém, o Kremlin nega a aproximação, até para manter distância entre o Estado e os mercenários privados.

De acordo com a agência catari Al Jazeera, ao passo em que as relações com a França pioraram, o governo militar do Mali ampliou laços com a Rússia. O ministro da Defesa malinês, Sadio Camara, esteve em Moscou no começo de setembro e supervisionou exercícios com tanques militares.

Sem entrar em detalhes, um porta-voz do Ministério confirmou a aproximação, segundo a agência Reuters. “A opinião pública no Mali é a favor de mais cooperação com a Rússia, dada a situação de segurança em curso. Mas nenhuma decisão foi tomada”.

Por que isso importa?

Wagner Group é uma organização obscura, cuja própria existência é invariavelmente desmentida. Mas há indícios de que ao menos 10 mil pessoas já atuaram no grupo, cuja primeira empreitada de que se tem notícia foi em 2014, quando se aliou a separatistas pró-Rússia contra o governo da Ucrânia. Desde então, há sinais de presença do grupo em conflitos em diversos países, como Líbia, Síria, Sudão, Moçambique e República Centro Africana.

Em agosto, um tablet perdido ajudou a expor os segredos da organização. Uma reportagem da BBC teve acesso ao equipamento, que expõe a participação da milícia na guerra civil da Líbia, sugere a proximidade entre associados do grupo e o governo russo e dá fortes indícios de que os mercenários são responsáveis por inúmeros crimes de guerra.

Tags: