Mali expulsa embaixador francês por críticas ao governo militar do país africano

Incidente diplomático ocorreu após declarações do chefe da diplomacia de Paris, que denunciou a ilegalidade da junta no poder
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O Mali anunciou na segunda-feira (31) a expulsão do embaixador francês Joel Meyer como resposta a comentários definidos como “ultrajantes” feitos sobre o governo interino do país africano. O comunicado foi transmitido na televisão nacional, que informou que o diplomata tinha 72 horas para deixar Bamako. As informações são da rede Voice of America (VOA).

“Esta medida segue os comentários hostis e ultrajantes feitos recentemente pelo ministro francês da Europa e Relações Exteriores e a recorrência de tais comentários das autoridades francesas em relação às autoridades malianas, apesar dos repetidos protestos”, disse o comunicado.

O mal-estar diplomático teve origem na semana passada, quando o ministro das Relações Exteriores da França, Jean-Yves Le Drian, declarou que a junta à frente do poder em Mali era “ilegítima e toma medidas irresponsáveis”. Ele ainda descreveu o governo de transição como “fora de controle”. O país sofreu dois golpes de Estado em nove meses e sofre pressão para novas eleições.

Joel Meyer, embaixador francês no Mali (Foto: Ambassade de France au Mali/Reprodução Facebook)

Principal aliado ocidental do Mali, a França marca presença militar no país há quase nove anos, sendo determinante para acabar com o domínio de grupos extremistas na região norte. Porém, as relações bilaterais começaram a ruir neste mês após a junta malinense declinar de um acordo que estabelecia novas eleições em fevereiro e ter lançado uma proposta de permanecer no poder por mais cinco anos.

Países da Europa também expressaram preocupação de que o governo interino do Mali tenha contratado os mercenários russos do Wagner Group. A misteriosa organização paramilitar privada é acusada de crimes de guerra em conflitos dos quais participou em diversas partes do mundo e daria suporte no combate às facções extremistas.

Na semana passada, o governo interino exigiu que a Dinamarca retirasse tropas recém-chegadas no Mali, acusando o país de “desdobramento sem autorização”, uma acusação rechaçada por Copenhague.

O ministro das Relações Exteriores da Dinamarca, Jeppe Kofod, escreveu em sua conta no Twitter que apoia os franceses na desavença diplomática.

“Relatos de que o embaixador francês foi declarado persona non grata pelas autoridades de transição do Mali são inaceitáveis. A Dinamarca está em total solidariedade com a França”, disse Kofod.

Por que isso importa?

A instabilidade no Mali começou com o golpe de Estado em 2012, quando vários grupos rebeldes e extremistas tomaram o poder no norte do país. De quebra, a nação, independente desde 1960, viveu em maio de 2021 o terceiro golpe de Estado em um intervalo de apenas dez anos, seguindo o que já havia ocorrido em 2012 e também em 2020.

A mais recente turbulência política começou semanas antes do golpe, com a demissão do primeiro-ministro Moctar Ouane pelo presidente Bah Ndaw. Reconduzido ao cargo pouco depois, Ouane não conseguiu formar um novo governo, e a tensão aumentou com a falta de pagamento dos salários dos professores. O maior sindicato da categoria, então, começou a se preparar para uma greve.

Veio a noite do dia 24 de maio, quando o coronel Assimi Goita, vice-presidente do país, destituiu Ndaw e Ouane de seus cargos e ordenou a prisão de ambos na capital Bamako. Segundo ele, os dois líderes civis violaram a carta de transição ao não consultarem o militar na formação do novo governo.

Ao contrário do que ocorreu em golpes anteriores, que contaram com apoio popular, desta vez a maior parte da população malinesa rejeitou a tomada de poder por Goita, que derrubou o governo de transição recém-instituído e assumiu o comando do país. A população civil não foi às ruas protestar contra o militar, mas usou as redes sociais para mostrar sua insatisfação.

Militarmente, especialistas e políticos ocidentais enxergam uma geopolítica delicada na região, devido ao aumento constante da influência de grupos jihadistas e a consequente explosão da violência nos confrontos entre extremistas e militares. Além disso, trata-se de uma posição importante para traficantes de armas e pessoas, e o processo em curso de redução das tropas franceses, que atuam no país desde 2013, tende a piorar a situação.

Os conflitos, antes concentrados no norte do país, se expandiram inclusive para os vizinhos Burkina Faso e Níger. A região central do Mali se tornou um dos pontos mais violentos de todo o Sahel africano, com frequentes assassinatos étnicos e ataques extremistas contra forças do governo.

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