Rússia usa seu corpo diplomático para difundir discurso anti-Ucrânia no Brasil, segundo estudo

Think tank afirma que os embaixadores espalham a retórica do Kremlin com o objetivo de 'minar o apoio ocidental e o moral interno ucraniano'

A Rússia realiza uma grande campanha online para “comunicar suas narrativas” e “promover seus interesses” na América Latina, inclusive no Brasil. Para tanto, utiliza seus veículos estatais de notícias, as redes sociais e também o corpo diplomático russo, que ajuda a difundir um discurso anti-Ucrânia e pró-Kremlin “adaptado a tópicos que suscitam maior interesse em cada país.” É o que mostra um estudo do Laboratório de Pesquisa Forense Digital do think tank Atlantic Council.

O estudo afirma que Moscou vem atuando globalmente, desde o início da guerra, para “minar o apoio ocidental e o moral interno ucraniano.” Aposta em uma operação de propaganda que usa conteúdo produzido por seus veículos de mídia oficias, como Russia Today (RT) e Sputnik, em comunhão com as redes sociais, sobretudo Telegram, TikTok e X. No caso latino-americano, os embaixadores ajudam a ampliar o alcance da retórica do Kremlin.

“Na guerra de propaganda, a Rússia permanece totalmente empenhada em conduzir operações de informação em todo o mundo, apostando no longo prazo para sobreviver a qualquer unidade entre os aliados da Ucrânia e persistir até que a Ucrânia perca a vontade de lutar”, diz o relatório fruto do estudo, que tem um capítulo especialmente dedicado à América Latina.

O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, em coletiva de imprensa em Madrid, Espanha, novembro de 2018 (Foto: Divulgação/Ministério das Relações Exteriores da Espanha)

Embora as sanções europeias tenham tirado do ar muitos veículos informativos russos, como o canal RT, a campanha se adequou rapidamente, migrou para as redes sociais e assim continuou a difundir, com sucesso, suas ideias no continente europeu.

No caso da América Latina, tal barreira não foi imposta, vez que os veículos estatais “continuam a ser as peças centrais das comunicações russas na região.” E a campanha foi reforçada pelo corpo diplomático de Moscou, que funciona como um megafone para o discurso do presidente Vladimir Putin.

“Os embaixadores desempenham um papel ao se tornarem porta-vozes legitimados nos meios de comunicação nacionais e colocarem os seus artigos de opinião nestes espaços, o que lhes permite articular as narrativas do Kremlin ao público latino-americano”, afirma o Laboratório

Jornalistas e influenciadores locais são igualmente citados como catalisadores da retórica do Kremlin, “mesmo que não sejam oficialmente afiliados aos meios de comunicação russos.”

O caso do Brasil

O Brasil surge em destaque no capítulo latino-americano, segundo o qual o embaixador russo por aqui, Alexey Labetskiy, foi citado por sites e blogs nacionais em 176 artigos publicados entre 1º de janeiro de 2023 e 23 de outubro de 2023. As falas dele se concentram na narrativa do Kremlin de que “a invasão da Ucrânia foi uma operação especial para desnazificar o país.”

Entretanto, no caso brasileiro, o que mais se destaca é a atuação da agência Sputnik Brasil, que chegou a ter seu fechamento anunciado em março do ano passado, sob a justificativa de que as sanções ocidentais a impediam de efetuar os pagamentos dos salários dos funcionários. Porém, o veículo está no ar ainda hoje, embora tenha mudado seu endereço online em julho do ano passado.

“As narrativas de promoção da capacidade militar russa foram o tema mais abordado pela Sputnik Brasil em todo o período analisado”, segundo o relatório. Os relatos da agência estatal analisados destacam o despreparo e a incapacidade das Forças Armadas ucranianas na guerra, em contraste com a eficiência das tropas e dos equipamentos militares de Moscou.

Além disso, 5.610 desses artigos ainda foram republicados tanto por sites de notícias brasileiros quanto em plataformas de mídia social, aumentando bastante seu alcance.

Outro assunto prioritário para a máquina de propaganda russa no país foi o apoio ocidental à Ucrânia, com a Sputnik Brasil insistindo na ideia de que Kiev vinha perdendo o suporte financeiro e militar dos EUA e da União Europeia (UE). Inclusive, foi um artigo sobre esse tema que gerou maior engajamento entre todos os analisados, alcançando potencialmente 691mil pessoas.

O estudo não afirma que Moscou obteve retorno diretamente em função da campanha de propaganda. Ressalta, no entanto, que “o apoio ocidental à Ucrânia está de fato oscilando, sobretudo em Washington, onde a ajuda adicional à Ucrânia está suspensa há meses no Congresso.”

“Quer a propaganda russa tenha desempenhado ou não um papel decisivo, o resultado da diminuição do apoio material ocidental à defesa da Ucrânia é o objetivo claro da guerra de informação do presidente Vladimir Putin”, analisa o think tank.

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