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Financiados por doadores ligados à Rússia, conservadores britânicos não são confiáveis em termos de segurança

Artigo revela que figuras ligadas ao Kremlin engordam fundos de políticos com objetivos escusos, aumentando assim a influência russa no Reino Unido

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site Labour List

Por Mike Tapp*

Os dias da Guerra Fria, quando espiões russos operavam nas ruas do Reino Unido tentando recrutar espiões britânicos para ter acesso aos nossos segredos mais importantes, ficaram no passado. Ou são o presente? Estamos agora no meio de uma nova era de capacidade de inteligência russa, que tem ecos de Spectre, a organização criminosa dos filmes de James Bond, com seus tentáculos alcançando profundamente a sociedade britânica, incluindo nosso governo?

A inteligência russa é bem financiada e está no centro da busca contínua de Vladimir Putin por influência global. Não se trata simplesmente de coletar inteligência por meio do recrutamento de espiões em embaixadas, ou mesmo de nossas agências de inteligência, ou por meio de guerra cibernética – é usar dinheiro para comprar influência no topo.

Como vimos pelas táticas criminosas imprudentes e agressivas usadas pelo GRU, o serviço de inteligência militar russo, quando realizou um ataque químico nas ruas da Grã-Bretanha, os russos não se contiveram. Então, jogar dinheiro naqueles que podem ser comprados não é exatamente uma tática de alto risco, na visão deles. E devemos estar atentos e agir contra.

O Ocidente deve considerar oligarcas, bilionários e grandes negócios como ferramentas poderosas no arsenal de influência russo. Eles vão doar fundos aos nossos políticos para influenciar suas decisões, normalmente ligadas às finanças e a projetos de infraestrutura, e é exatamente isso que pode ter sido revelado nos vazamentos dos Pandora Papers.

A presidente trabalhista Anneliese Dodds escreveu ao Partido Conservador levantando preocupações sobre doações a 34 parlamentares conservadores por empresas apoiadas por um magnata do petróleo nascido na Rússia, citado nos Pandora Papers. Incrivelmente, quase um em cada dez parlamentares conservadores tirou dinheiro de uma empresa, AQUIND, que tem ambições de construir uma interconexão de eletricidade entre a França e o Reino Unido – algo com que todos devemos nos preocupar.

O primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, é o líder do Partido Conservador britânico (Foto: Divulgação/Chatam House)

O jornal britânico Mirror relatou que, desde que Boris Johnson se tornou primeiro-ministro, os conservadores receberam dois milhões de libras de doadores com ligações com a Rússia, e quase um quarto dos ministros que participam do gabinete aceitaram doações de três ex-russos bem relacionados. Claro, um porta-voz do partido disse: “A política do governo não é de forma alguma influenciada pelas doações que o partido recebe. São coisas totalmente separadas”.

Nesta semana, no The Andrew Marr Show, quando questionado sobre o projeto de interconexão França-Reino Unido, o secretário de Negócios, Energia e Estratégia Industrial, Kwasi Kwarteng, disse “nunca comentei sobre este projeto específico” e que estará “contando com conselho [independente ] oficial, já que os servidores não estão comprometidos”.

Isso é preocupante por duas razões: em primeiro lugar, parece algo como uma admissão de que aqueles que receberam dinheiro de doadores russos estão comprometidos; em segundo lugar, Kwarteng enviou uma carta em 17 de março do ano passado para Alexander Temerki, o diretor da AQUIND, na qual ele escreveu: “Tenha certeza de que nosso apoio ao projeto permanece”.

Como nossos serviços de inteligência altamente capacitados trabalham arduamente para conter a ameaça russa, o público deve entender que é difícil tomar medidas legais contra esse tipo de ameaça, já que “influência” é difícil de provar. Não há dúvida de que essas doações são, na melhor das hipóteses, inadequadas e, na pior, subversivas – e nos apresentam a trágica possibilidade de um governo comprometido.

Nós, o eleitorado britânico, podemos fazer a nossa parte para manter o país seguro, não permitindo que essa atividade prejudicial continue. De forma semelhante àquela como ajudamos a manter o país protegido de terroristas com o slogan antiterrorismo “see it, say it, sorted” (“ver, denunciar, classificar”, em tradução livre), devemos fazer o mesmo contra a influência russa e advertir o governo. Nas urnas. Não podemos confiar nos Conservadores com nossa segurança.

*ex-oficial de inteligência e ativista do Partido Trabalhista britânico