A queda do regime de Bashar al-Assad, em dezembro de 2024, não mudou apenas o equilíbrio político da Síria. O avanço rebelde também revelou ao mundo a força de um grupo pouco conhecido fora do Oriente Médio e da Ásia Central: os combatentes uigures que lutaram ao lado das facções islamistas sírias durante mais de uma década de guerra civil. As informações são da NPR.
Nos bastidores da ofensiva que levou à tomada de Aleppo e abriu caminho até Damasco, milhares de uigures participaram de operações consideradas decisivas pelo novo governo sírio. Vindos principalmente da região chinesa de Xinjiang, eles se consolidaram como um dos maiores contingentes estrangeiros do conflito e hoje ocupam posições relevantes dentro da nova estrutura militar da Síria.
O protagonismo desses combatentes transformou a questão uigur em um novo foco de tensão internacional, especialmente para a China, que pressiona o governo sírio a conter a influência dos grupos armados ligados ao separatismo de Xinjiang.

Quem são os uigures
Os uigures são um povo turcomeno de maioria muçulmana sunita que vive principalmente em Xinjiang, região no extremo oeste da China. Historicamente, muitos uigures defendem maior autonomia cultural, religiosa e política em relação a Beijing. Parte dos movimentos nacionalistas também utiliza o nome “Turquestão Oriental” para se referir à região.
Ao longo das últimas décadas, o governo chinês endureceu o controle sobre Xinjiang. Autoridades chinesas justificam as medidas como combate ao extremismo e ao terrorismo, especialmente após ataques violentos atribuídos a separatistas uigures entre os anos 1990 e 2010.
Por outro lado, organizações internacionais de direitos humanos acusam Beijing de promover repressão sistemática contra a população uigur, incluindo vigilância em massa, detenções em campos de reeducação, restrições religiosas e assimilação cultural forçada.
Em 2021, os Estados Unidos classificaram a política chinesa em Xinjiang como “genocídio”, acusação rejeitada pelo governo chinês.
Como os uigures chegaram à Síria
O crescimento da presença uigur na Síria começou após os distúrbios de Urumqi, em 2009, quando confrontos entre uigures e chineses da etnia han deixaram centenas de mortos. Muitos uigures passaram a deixar a China nos anos seguintes, buscando refúgio principalmente na Turquia.
Com o início da guerra civil síria em 2011, parte desses exilados cruzou a fronteira turca em direção ao norte da Síria. Inicialmente, muitos alegam que buscavam treinamento militar e proteção comunitária, mas acabaram envolvidos diretamente no conflito contra o regime de Assad.
Ao longo da guerra, os combatentes uigures se concentraram principalmente em Idlib e em cidades próximas, como Jisr al-Shughur, uma região estratégica no noroeste sírio.
Foi ali que surgiu a principal força armada uigur na Síria: o Partido Islâmico do Turquestão (TIP), organização que reuniu milhares de combatentes e suas famílias.
O papel militar na queda de Assad
Segundo comandantes rebeldes e analistas internacionais, os uigures ganharam reputação por sua disciplina militar e disposição para atuar em operações de alto risco.
Durante anos, o TIP ocupou linhas de frente contra tropas do regime sírio e forças russas aliadas de Assad. Combatentes afirmam que passavam semanas inteiras em trincheiras sob bombardeios intensos.
Em 2024, os uigures participaram de uma ofensiva coordenada com o Hayat Tahrir al-Sham, liderado por Ahmed al-Sharaa.
Uma das operações mais importantes ocorreu nos arredores de Aleppo. Combatentes uigures utilizaram um túnel subterrâneo de mais de três quilômetros para atravessar posições inimigas e cortar linhas de abastecimento do exército sírio. O ataque surpreendeu as tropas do regime e acelerou a queda da cidade.
A conquista de Aleppo abriu caminho para a ofensiva rebelde até Damasco. Poucos dias depois, Bashar al-Assad fugiu para a Rússia, encerrando mais de duas décadas de poder da família Assad.
Influência no novo governo sírio
Após a vitória rebelde, muitos combatentes uigures foram incorporados ao novo Exército Nacional Sírio. Comandantes ligados ao TIP também receberam cargos dentro do Ministério da Defesa sírio.
A decisão reforçou os laços entre os uigures e o novo governo de Ahmed al-Sharaa, mas aumentou a pressão internacional sobre Damasco.
Em declarações recentes, autoridades chinesas afirmaram esperar que a Síria impeça qualquer grupo armado de usar o território sírio para ameaçar os interesses da China.
Pequim considera organizações separatistas uigures como grupos terroristas. Durante anos, a China associou o separatismo uigur ao Movimento Islâmico do Turquestão Oriental (ETIM), incluído pelos Estados Unidos em listas antiterrorismo após os atentados de 11 de setembro de 2001.
Em 2020, porém, Washington retirou o ETIM da lista de organizações terroristas, alegando falta de provas recentes sobre sua atuação. A China criticou duramente a decisão.
Especialistas divergem sobre ameaça terrorista
Pesquisadores que acompanham a guerra síria afirmam que os grupos uigures presentes na Síria possuem perfil mais nacionalista do que global jihadista.
Analistas apontam que muitos combatentes concentraram suas ações na luta contra Assad e no objetivo de fortalecer a causa uigur ligada a Xinjiang, sem participação comprovada em ataques internacionais.
Mesmo assim, especialistas reconhecem que parte dos primeiros combatentes uigures teve ligação com redes extremistas no Afeganistão e no Paquistão durante os anos 1990 e 2000.
Outro fator que preocupa governos internacionais é a experiência militar acumulada pelos uigures após mais de uma década de combate intenso na Síria.
Conflitos internos e tensão religiosa
Além da pressão chinesa, os uigures enfrentam resistência dentro da própria Síria.
Durante a guerra, diversas comunidades cristãs e xiitas abandonaram aldeias ocupadas posteriormente por combatentes estrangeiros, incluindo uigures. Com o fim do conflito, moradores passaram a exigir a devolução de propriedades.
Líderes cristãos sírios também demonstram preocupação com o conservadorismo religioso de parte das facções uigures.
Após negociações com o governo sírio, algumas propriedades começaram a ser devolvidas nos últimos meses.
Combatentes entrevistados pela imprensa internacional afirmam apoiar os acordos e dizem que pretendem permanecer na Síria sem conflitos com a população local.
A nova comunidade uigur na Síria
Hoje, estima-se que cerca de 20 mil uigures vivam na Síria, incluindo mulheres e crianças.
A comunidade criou escolas em língua uigur, estabeleceu negócios próprios e ampliou sua presença econômica no norte do país. Muitos combatentes dizem enxergar a Síria como um novo lar após anos de exílio.
Ainda assim, boa parte deles afirma continuar sonhando com Xinjiang.
Em entrevistas recentes, líderes uigures declararam acreditar que o Partido Comunista Chinês (PCC) entrará em colapso no futuro e que pretendem manter viva a identidade cultural do povo uigur até esse momento.