Coreia do Norte executa em público nove pessoas acusadas de contrabandear carne

Testemunhas dizem que o julgamento durou cerca de uma hora, e cidadãos que estavam na região foram obrigados a assistir

O governo da Coreia do Norte reuniu cerca de 25 mil pessoas no aeroporto de Hyesan, no noroeste do país, perto da fronteira com a Coreia do Sul, para um grotesco espetáculo no dia 30 de agosto. Os presentes foram obrigados a presenciar a execução, por um pelotão de fuzilamento, de sete homens e duas mulheres acusados de contrabandear carne. As informações são da rede Radio Free Asia (RFA).

Segundo moradores da região, os condenados seriam integrantes de um grupo que comprou, abateu e revendeu a carne de cerca de 2,1 mil vacas pertencentes ao governo. O produto era entregue a mercados e empresas que então o revendiam à população, em um país onde a fome faz parte da rotina de muitas familias.

Cidadãos que testemunhara a violência dizem que soldados das forças armadas de Pyongyang realizaram o julgamento pouco antes das execuções. Foram divulgados os crimes de cada um dos acusados, e após cerca de uma hora de júri veio a sentença.

Bandeira da Coreia do Norte exposta em prédio (Foto: WikiCommons)
Execuções em público

O governo do fechado país asiático divulga reduzidas informações sobre seus atos, por isso informações que chegam ao exterior nem sempre são precisas. As execuções em público, por exemplo, são um tabu, embora acredite-se que tenham sido retomadas pelo governo de Kim Jong-un após breve interrupção no início dos anos 2000.

Os números referentes à aplicação da pena de morte na Coreia do Norte também são um mistério. Em seu relatório anual sobre o assunto, a ONG Anistia Internacional afirma que “é provável que a pena de morte seja aplicada de forma sustentada, mas é impossível verificar de forma independente.” O documento diz, ainda, que o país é um dos muitos que aplicam a pena capital sem necessariamente seguir os “padrões internacionais de julgamento justo.”

Um relatório de 2021 da ONG Grupo de Trabalho sobre Justiça Transnacional (TJWG, na sigla em inglês), com sede em Seul, entrevistou mais de 600 norte-coreanos que fugiram para a Coreia do Sul e determinou que pelo menos 27 execuções públicas ocorreram entre 2011, o ano em que o jovem Kim assumiu o poder, e 2018. 

Pelo que sabe, também é um padrão no país exigir que cidadãos que estejam nas imediações do local da execução, ou das execuções, compareçam para presenciar o pelotão de fuzilamento em ação. No caso mais recente, testemunhas alegam que a indústria e o comércio da região do aeroporto de Hyesan tiveram que interromper suas operações para que os cidadãos assistissem às mortes.

Uma mulher diz que o governo alegou, ao anunciar a sentença condenatória, que “as vacas são necessárias para arar os campos e para a agricultura, mas os culpados, ao abatê-las, prejudicaram a produção de grãos do país e perturbaram a sociedade.”

O crime foi considerado ainda mais grave devido à fome que atinge a Coreia do Norte, segundo outra testemunha. “Esses criminosos são traiçoeiros, por isso não há lugar para enterrá-los em nosso país, seja no céu ou no solo, e até mesmo o extermínio de três gerações não é suficiente”, teria dito um membro do tribunal.

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