A política de desnuclearização da Coreia do Norte, por décadas tratada como prioridade dos Estados Unidos, voltou ao centro do debate internacional após uma avaliação contundente de um dos principais especialistas no tema. Em artigo publicado na revista Foreign Affairs e repercutido pela agência NK News, Victor Cha, ex-integrante do Conselho de Segurança Nacional no governo George W. Bush, afirmou que a estratégia “fracassou” e sugeriu uma nova abordagem baseada em uma “paz fria” com o regime de Pyongyang.
Cha, que já defendeu o modelo de desmantelamento completo, verificável e irreversível (CVID), argumenta que a insistência nesse objetivo, aliada à forte dependência de sanções econômicas, não produziu os resultados esperados. Segundo ele, a Coreia do Norte avançou significativamente em seu programa nuclear, acumulando dezenas de ogivas e desenvolvendo mísseis balísticos intercontinentais capazes de atingir o território norte-americano.

Para o especialista, os Estados Unidos não devem abandonar a desnuclearização como meta de longo prazo, mas precisam reconhecer que ela se tornou distante. Ele defende que Washington priorize ações imediatas de segurança nacional, como a proteção do território, o fortalecimento de mecanismos de dissuasão e a criação de canais de gerenciamento de crises.
A proposta central apresentada por Cha é a construção de uma “paz fria”, conceito que envolve a aceitação prática da Coreia do Norte como potência nuclear de fato, combinada a acordos limitados para reduzir riscos. Entre as medidas sugeridas estão restrições a testes nucleares e de mísseis, limites na produção de armamentos e mecanismos para evitar escaladas militares.
O debate ganhou força entre analistas e autoridades. Especialistas ouvidos pela imprensa internacional avaliam que o posicionamento de Cha reflete uma percepção crescente de que a atual estratégia diplomática se tornou insustentável. Embora essa visão já circule há anos em círculos acadêmicos e políticos, o peso do autor, considerado um dos maiores especialistas em Coreia em Washington, amplia o impacto da discussão.
O cenário internacional também contribui para a mudança de abordagem. Nos últimos anos, a Coreia do Norte consolidou seu status nuclear, incorporando-o à Constituição e ampliando sua capacidade militar. O país também intensificou sua cooperação com Rússia e China, o que dificulta a aplicação de sanções e reduz o isolamento internacional.
Além disso, o contexto geopolítico pressiona os Estados Unidos, que enfrentam desafios simultâneos envolvendo China, Rússia e Irã. Nesse ambiente, a priorização de riscos imediatos ganha espaço no debate estratégico.
Apesar disso, a proposta de “paz fria” enfrenta críticas. Analistas alertam que reconhecer, ainda que de forma indireta, o status nuclear da Coreia do Norte pode estimular outros países, como Coreia do Sul e Japão, a considerarem seus próprios programas nucleares, aumentando o risco de proliferação na região.
Mesmo com as divergências, a avaliação de Cha sinaliza uma possível inflexão no pensamento estratégico dos Estados Unidos. Ao sugerir que o “perfeito não deve ser inimigo do bom”, o especialista indica que o foco pode migrar da eliminação total das armas nucleares para a gestão de riscos e a prevenção de conflitos.