Etiópia teme nova guerra civil enquanto combates avançam no Tigré

Exército promete moderação diante do avanço de grupos armados; Eritreia é acusada de apoiar forças que tentam enfraquecer o governo de Abiy Ahmed

O Exército da Etiópia afirmou que pretende responder com “sabedoria e moderação” ao aumento dos combates no norte do país, enquanto crescem os temores de uma nova guerra civil. A declaração foi feita pelo chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, marechal de campo Berhanu Jula, em seus primeiros comentários públicos sobre a nova escalada militar. As informações são da Al Jazeera.

Jula acusou a Eritreia de financiar e apoiar grupos armados com o objetivo de enfraquecer o governo do primeiro-ministro Abiy Ahmed. Segundo o comandante, a aliança Tsimdo representa uma continuidade de alianças hostis que, sem apoio externo, não teriam condições de enfrentar o Estado etíope.

A Eritreia negou as acusações. O governo de Asmara teme que a Etiópia, país sem litoral desde a independência da Eritreia, esteja tentando recuperar acesso ao Mar Vermelho por meio de seu território. A disputa pelo acesso ao litoral é um dos principais pontos de tensão entre os dois países e já foi abordada pela A Referência.

Um homem passa ao lado dos destroços de um tanque T-72 destruído na rua principal de Edaga Hamus, na região de Tigré, Etiópia, em junho de 2021 (Foto: WikiCommons)

Os combates se espalharam do Tigré para as regiões vizinhas de Afar e Amhara depois que sete grupos armados anunciaram uma aliança contra o governo federal. A coalizão, chamada Aliança das Forças Populares Etíopes para a Sobrevivência, defende a derrubada do governo de Abiy Ahmed.

Em Afar, os confrontos mais recentes ocorreram nos arredores de Abala, onde as forças federais tentam impedir o avanço dos grupos armados. Em North Wollo, uma zona de Amhara na fronteira com o Tigré, o Exército etíope afirmou ter matado 272 combatentes tigrés e ferido outros 260 durante uma contraofensiva.

A TPLF, por sua vez, afirmou que o governo federal lançou uma ofensiva em grande escala, com participação de tropas de infantaria, unidades mecanizadas e drones. Addisalem Balema, integrante do comitê central da organização, disse à Al Jazeera que a situação havia se transformado em uma “guerra total”.

Os confrontos também foram registrados nas áreas de Sama, Soqota e Raya Alamata. Relatos indicam que forças governamentais estariam se aproximando de Alamata.

A nova escalada ocorre depois de uma série de episódios que já haviam colocado em dúvida a estabilidade do acordo de paz. Em março de 2025, A Referência publicou a reportagem “Conflito armado ressurge em Tigré e ameaça acordo de paz na Etiópia”, após uma facção dissidente da TPLF capturar duas cidades estratégicas e provocar novos temores de retorno da guerra civil.

O episódio expôs as divisões internas da TPLF e mostrou que o Acordo de Pretória, firmado em 2022, permanecia vulnerável. O pacto encerrou a guerra de Tigré, mas não eliminou as disputas políticas e territoriais que haviam alimentado o conflito.

Em agosto deste ano, A Referência voltou ao tema em “A guerra que o mundo esqueceu pode estar voltando — e desta vez envolve três países da África”. A reportagem mostrou que uma nova guerra no Tigré poderia ultrapassar as fronteiras etíopes e envolver Eritreia, Egito, Sudão, Somália, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.

A preocupação tem relação direta com a posição estratégica do Tigré. A região faz fronteira com a Eritreia e fica próxima de Amhara e Afar, áreas que também foram atingidas durante a guerra anterior. Naquele conflito, a TPLF chegou a avançar para regiões vizinhas e formou uma aliança com o Exército de Libertação Oromo.

O papel da Eritreia é particularmente sensível. Durante a guerra de 2020 a 2022, tropas eritreias apoiaram as forças do governo etíope contra a TPLF. As relações entre os dois países, porém, se deterioraram depois do Acordo de Pretória, que encerrou os combates sem incluir diretamente Asmara nas negociações.

A disputa pelo Mar Vermelho acrescentou outra dimensão ao problema. A Etiópia perdeu seu acesso direto ao litoral quando a Eritreia se tornou independente, em 1993. Desde então, Adis Abeba passou a defender com maior intensidade a necessidade de recuperar acesso ao mar, enquanto Asmara considera qualquer tentativa de ampliar a presença etíope na costa uma ameaça à sua segurança.

A questão também se conecta à disputa entre Etiópia e Egito pelo Nilo. O Cairo mantém relações próximas com a Eritreia e se opõe a iniciativas de Adis Abeba que possam ampliar sua influência regional. Uma nova guerra no Tigré poderia, portanto, aproximar diferentes disputas que já atravessam o Chifre da África.

O comando do Exército etíope afirma preferir uma estratégia de “calma estratégica” a um confronto militar de grande escala. Segundo Berhanu Jula, o apoio popular à TPLF estaria diminuindo e a liderança da organização estaria dividida.

A retomada dos combates, contudo, coloca novamente sob pressão o Acordo de Pretória. O conflito anterior, travado entre 2020 e 2022, deixou milhões de deslocados e provocou uma grave crise humanitária. A A Referência mantém um arquivo especial sobre o Tigré, com reportagens sobre o conflito, o acordo de paz, a atuação da Eritreia e as consequências humanitárias da guerra.

O novo cenário acrescenta um elemento que não estava presente da mesma forma nas primeiras fases da crise: uma aliança envolvendo sete grupos armados e com o objetivo declarado de derrubar o governo federal. Caso os combates avancem para outras regiões, a crise poderá novamente conectar as disputas internas da Etiópia às rivalidades que envolvem o Mar Vermelho e o Chifre da África.

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