Congelar a IA pode deixar gigantes ainda maiores e startups para trás

Proposta de desaceleração do desenvolvimento de sistemas avançados abre uma disputa entre segurança, concorrência e corrida tecnológica entre Estados Unidos e China

A discussão sobre uma possível desaceleração no desenvolvimento da inteligência artificial (IA) ganhou uma nova dimensão nos Estados Unidos. Enquanto executivos de algumas das maiores empresas do setor defendem limitar o ritmo de avanço dos sistemas mais poderosos por razões de segurança, empresas menores e pesquisadores afirmam que um eventual congelamento poderia consolidar justamente o domínio dos laboratórios que já estão na liderança. As informações são da NPR.

A discussão ocorre em meio a alertas sobre agentes de IA cada vez mais autônomos, capazes de executar tarefas sem supervisão humana constante. Funcionários e ex-funcionários de empresas do setor também vêm alertando para riscos relacionados à perda de controle sobre sistemas mais avançados. A preocupação já chegou à China, que passou a tratar a possibilidade de sistemas de IA escaparem do controle humano como uma questão de segurança e criou regras específicas para limitar a autonomia desses agentes.

Em 2023, o então primeiro-ministro britânico Rishi Sunak se reúne com Demis Hassabis, CEO do Google DeepMind, Dario Amodei, CEO da Anthropic, e Sam Altman, CEO da OpenAI (Foto: WikiCommons)

Entre os executivos que apoiam algum tipo de desaceleração estão Dario Amodei, da Anthropic, Sam Altman, da OpenAI, Elon Musk, da xAI, Demis Hassabis, do Google DeepMind, e Satya Nadella, da Microsoft. As propostas, porém, não são idênticas e não existe um modelo único sobre como uma eventual limitação deveria funcionar.

O principal argumento das empresas menores é econômico. Um congelamento generalizado interromperia a evolução dos modelos justamente no ponto em que companhias emergentes tentam reduzir a diferença em relação aos laboratórios de ponta. David Bellamy, pesquisador do Institute of Foundation Models, organização apoiada pelos Emirados Árabes Unidos, afirmou à NPR que, em um cenário de congelamento em toda a indústria, as empresas que já possuem os modelos mais avançados tenderiam a manter sua participação de mercado.

Bellamy estima que o modelo desenvolvido por seu instituto esteja aproximadamente seis meses atrás dos sistemas mais avançados da OpenAI e da Anthropic. Para empresas que ainda estão tentando alcançar os líderes, uma interrupção no ritmo de desenvolvimento significaria manter uma diferença tecnológica existente em vez de permitir que ela fosse reduzida.

O argumento também envolve acesso a capital, capacidade computacional e distribuição. Nick Frosst, cofundador da startup canadense Cohere, afirmou que uma desaceleração coordenada pelo setor privado poderia consolidar a vantagem das empresas que já concentram maior capacidade de processamento, capital e canais de distribuição.

A avaliação é compartilhada por Álvaro Bedoya, ex-comissário da Comissão Federal de Comércio dos Estados Unidos. Segundo ele, um congelamento poderia tornar a competição mais desigual e pressionar empresas menores a serem adquiridas por concorrentes maiores ou a abandonar o mercado.

O debate ganhou ainda uma dimensão antitruste. Quatro consumidores de produtos de IA abriram uma ação federal nos Estados Unidos contra Anthropic, OpenAI, Google e xAI, acusando as empresas de terem estabelecido um acordo ilegal para desacelerar o desenvolvimento da tecnologia. Os autores alegam que a iniciativa viola a legislação antitruste e poderia reduzir o ritmo de melhorias nos serviços de IA pagos. As acusações ainda dependem de análise judicial.

A questão se torna ainda mais complexa quando entra a China. Uma desaceleração restrita aos Estados Unidos não impediria empresas chinesas de continuar desenvolvendo seus próprios modelos. Para os críticos da proposta americana, isso poderia ampliar a vantagem tecnológica de Beijing caso os laboratórios chineses continuassem avançando enquanto concorrentes americanos reduzissem o ritmo.

A China já transformou a inteligência artificial em uma área estratégica. Beijing amplia investimentos em capacidade computacional e infraestrutura, ao mesmo tempo em que tenta reduzir a dependência de tecnologias estrangeiras. O país também vem acelerando a incorporação da IA à indústria e à economia. A Referência mostrou recentemente que a expansão da tecnologia cria um dilema para o governo de Xi Jinping: a IA pode aumentar a produtividade, mas também acelerar a substituição de trabalhadores.

A disputa também envolve a segurança dos próprios sistemas. Em setembro, A Referência mostrou que Beijing passou a incluir explicitamente a possibilidade de perda de controle sobre sistemas avançados em sua estrutura de segurança para IA. As autoridades chinesas estabeleceram mecanismos para detectar, interromper e recuperar agentes que apresentem comportamentos considerados inadequados.

Esse movimento ocorre paralelamente à competição tecnológica entre Washington e Beijing. Os dois países disputam não apenas a criação dos modelos mais avançados, mas também chips, capacidade computacional, infraestrutura de dados e controle sobre cadeias tecnológicas. A inteligência artificial passou a fazer parte de uma disputa mais ampla pela infraestrutura digital e pela autonomia tecnológica.

Uma eventual desaceleração global dependeria, portanto, da participação chinesa. Dario Amodei reconheceu que qualquer tentativa de estabelecer um ritmo comum para o desenvolvimento da IA precisaria envolver Beijing e contar com mecanismos capazes de verificar o cumprimento do acordo. Sem isso, empresas de diferentes países poderiam seguir em velocidades distintas.

O problema coloca a segurança da inteligência artificial diretamente em contato com a estrutura de competição do setor. As maiores empresas possuem hoje mais capital, capacidade computacional e distribuição, enquanto startups e laboratórios menores dependem da continuidade do avanço tecnológico para reduzir essa distância.

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