Aliados do opositor russo Alexei Navalny criticaram duramente a publicação de fotos da autópsia do político por um veículo de imprensa investigativo. A divulgação das imagens, sem edição, gerou indignação entre membros da equipe do ativista e levantou questionamentos sobre ética jornalística e respeito à memória do opositor. As informações são do The Moscow Times.
A diretora da Fundação Anticorrupção (FBK), Maria Pevchikh, afirmou na rede social X, antigo Twitter, que várias pessoas entraram em contato com ela após a divulgação de trechos de um relatório médico-legal sobre a morte de Navalny.

Segundo Pevchikh, sua equipe já possuía o documento há cerca de um ano e meio, mas decidiu não divulgá-lo por considerar que seu conteúdo não atendia a padrões éticos mínimos.
“Era difícil para mim sequer cogitar a possibilidade de algum jornalista decidir publicá-lo. Seu conteúdo não atende a nenhum padrão ético”, escreveu ela. A ativista acrescentou que não vê qualquer interesse público que justifique a divulgação das imagens.
A polêmica começou quando o site independente The Insider compartilhou trechos de um laudo médico-legal supostamente vazado do governo russo, incluindo uma fotografia do corpo de Navalny.
Após as críticas de aliados e apoiadores do opositor, que acusaram o veículo de ultrapassar limites éticos, o site pediu desculpas e informou que substituiria a imagem.
A morte de Navalny ocorreu em fevereiro de 2024 em uma prisão no Ártico russo. O governo da Rússia afirma que o opositor morreu de causas naturais.
No entanto, no mês passado, governos de Grã-Bretanha, França, Alemanha, Suécia e Holanda acusaram autoridades russas de terem assassinado o político com uma toxina rara chamada epibatidina, encontrada em rãs-flecha da América do Sul. O Kremlin nega veementemente as acusações.
Tentando antecipar a possível divulgação das imagens, Pevchikh também publicou trechos de um relatório de 238 páginas produzido pelo Centro de Exames Médico-Legais do Ministério da Saúde russo.
Segundo ela, o exame forense teria identificado indícios de veneno e a presença de um antídoto misturado a outras substâncias químicas cuja origem não foi explicada.
A ativista afirmou ainda que o exame médico-legal apresenta sinais de ter sido manipulado para sustentar a versão oficial de que Navalny morreu de causas naturais.
As autoridades russas disseram apenas que o opositor passou mal e desmaiou durante uma caminhada no pátio da prisão na cidade de Kharp, localizada no distrito autônomo de Yamalo-Nenets. Até hoje, a explicação completa sobre as circunstâncias da morte não foi divulgada.
Por que isso importa?
Principal opositor do presidente russo Vladimir Putin, Navalny ganhou destaque ao organizar manifestações e concorrer a cargos públicos na Rússia. A rede dele chegou a ter 50 sedes regionais e denunciava casos de corrupção envolvendo o governo, o que levou o Kremlin a agir judicialmente para proibir a atuação do opositor, que então passou a ser perseguido.
Em agosto de 2020, durante viagem à Sibéria, Navalny foi envenenado e passou meses se recuperando em Berlim. Ele voltou a Moscou em 17 de janeiro de 2021 e foi detido no aeroporto. Um mês depois, foi julgado e condenado por violar uma sentença suspensa de 2014, um caso de fraude. Os promotores alegaram que ele não se apresentou à polícia justamente quando estava em coma pela dose tóxica.
Encarcerado em uma colônia penal de alta segurança, chegou a fazer uma greve de fome para protestar contra a falta de atendimento médico. Depois, em junho de 2021, um tribunal russo proibiu os escritórios regionais e a Fundação Anticorrupção (FBK) dele de funcionarem, classificando-os como “extremistas”. Julgado e condenado, o oposicionista jamais recuperou a liberdade e mantinha contato com seus seguidores pelas redes sociais, atualizadas por aliados.
A última medida retaliatória do governo contra Navalny foi transferi-lo para a gelada colônia penal IK-3, no Ártico russo, onde ele morreu no dia 16 de fevereiro de 2024. O inimigo número um de Putin desmaiou quando caminhava no pátio, e as tentativas de ressuscitá-lo, segundo os agentes carcerários, foram em vão.
Navalny cumpria pena de 30 anos por acusações diversas, que vão desde fraude até extremismo, esta a mais grave. Ele sempre alegou que as acusações eram politicamente motivadas e frequentemente reclamava do tratamento que recebia no cárcere, dizendo inclusive que sua saúde estava debilitada por isso.
A perseguição de que era vítima levou aliados, grupos de defesa dos direitos humanos, governos estrangeiros e até a ONU (Organização das Nações Unidas) a culparem o governo russo pela morte, alguns usando a palavra “assassinato”.