Omã, conhecido há décadas como a “Suíça do Oriente Médio” por sua política externa de neutralidade, tornou-se peça-chave nas negociações sobre o futuro do Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais estratégicas do planeta. Enquanto busca preservar seu papel de mediador entre Irã e Estados Unidos, o país enfrenta pressões dos dois lados em torno da possibilidade de implantação de um sistema de cobrança para embarcações que cruzam a hidrovia. As informações são da CNBC.
Ormuz voltou ao centro da geopolítica internacional após a guerra entre Estados Unidos e Irã, que interrompeu o tráfego marítimo e desencadeou uma crise energética global. Embora um acordo provisório tenha permitido o início da retomada da navegação, ainda existem dúvidas sobre como será administrada a segurança da região e quem exercerá influência sobre o corredor marítimo.

Omã e Irã mantêm negociações para estabelecer uma nova ordem de segurança no estreito. Segundo analistas ouvidos pela CNBC, um dos temas em discussão é a criação de taxas de serviço para embarcações que utilizam a passagem, ideia que desperta forte oposição de Washington.
Apesar de afirmar que qualquer medida seguirá o direito internacional, Omã evita confirmar ou negar se apoiará um modelo de cobrança. Essa postura foi classificada por especialistas como uma estratégia de “ambiguidade estratégica”, permitindo que o país preserve o diálogo tanto com Teerã quanto com Washington.
“O país está tentando manter distância do conflito sem desagradar nenhuma das duas potências”, afirmou Dania Thafer, diretora-executiva do Gulf International Forum.
Do ponto de vista jurídico, especialistas destacam que o Estreito de Ormuz é regido pelo princípio da passagem em trânsito, que impede a cobrança de pedágios simplesmente pela travessia. Ainda assim, taxas relacionadas à prestação de serviços poderiam abrir espaço para um modelo alternativo de arrecadação.
Os Estados Unidos rejeitam qualquer tentativa de implantação desse sistema. O governo do presidente Donald Trump já advertiu que poderá impor sanções severas caso Omã seja visto como aliado do Irã na implementação de cobranças para navios que utilizam a rota.
Pelos termos do memorando firmado entre Washington e Teerã, o Irã está impedido de criar novas taxas durante o período de negociações destinado à busca de uma solução permanente para a região.
Mesmo assim, segundo informações da Reuters citadas pela CNBC, autoridades iranianas continuam defendendo o reconhecimento internacional de seu controle sobre o estreito, incluindo a possibilidade de cobrar embarcações que entram ou deixam o Golfo.
Para Andrew Leber, pesquisador do Programa Carnegie para o Oriente Médio, Omã ficou preso entre interesses conflitantes. De um lado, o Irã deseja algum tipo de reconhecimento de sua influência sobre a hidrovia. Do outro, os Estados Unidos exigem que nenhuma cobrança seja criada.
Segundo ele, a tendência é que Omã continue apoiando propostas intermediárias, como taxas de serviço em vez de pedágios tradicionais, desde que isso não provoque um confronto direto com Washington ou com seus vizinhos árabes.
Especialistas também alertam para os impactos econômicos da situação. Neil Quilliam, pesquisador da Chatham House, afirma que os investidores costumam monitorar riscos de conflitos militares, mas dão pouca atenção às mudanças de governança sobre o estreito.
Na avaliação dele, esse é justamente o “ponto cego” dos mercados. Mesmo sem novos ataques ou bloqueios, alterações graduais nas regras de funcionamento do Estreito de Ormuz podem elevar custos operacionais, seguros marítimos e exigências regulatórias para empresas que dependem da principal rota de exportação de petróleo do Oriente Médio.