Trump está dando espaço para Kim Jong-un enquanto a Coreia do Norte ajuda Putin?

Enquanto Washington reduz os exercícios militares com a Coreia do Sul, Pyongyang aprofunda sua aliança militar com Moscou e amplia sua participação na guerra da Ucrânia

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ordenou uma redução substancial dos exercícios militares conjuntos com a Coreia do Sul justamente no momento em que a Coreia do Norte amplia sua cooperação militar com a Rússia. A decisão reacende uma questão incômoda para Washington e seus aliados asiáticos: ao tentar reabrir um canal de diálogo com Kim Jong-un, Trump pode estar oferecendo ao líder norte-coreano espaço para fortalecer sua posição estratégica?

Trump afirmou nesta segunda-feira (17) que não está satisfeito com os exercícios militares entre Washington e Seul e citou sua “muito boa relação” com Kim. O presidente também classificou as manobras como caras e provocativas e determinou ao secretário de Defesa, Pete Hegseth, que reduza significativamente a participação americana.

A decisão ocorre poucas horas depois do início do exercício Ulchi Freedom Shield, uma das principais atividades militares conjuntas entre os norte-americanos e sul-coreanos. Segundo a Reuters, cerca de 18 mil militares sul-coreanos participam da operação, que começou conforme programado apesar da determinação de Trump.

Fuzileiros navais sul-coreanos realizam exercícios com aeronave do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA (Foto: WikiCommons)
Kim ganhou força

O momento escolhido por Trump é particularmente delicado porque a Coreia do Norte chega a 2026 em uma posição militar diferente daquela que ocupava durante as primeiras tentativas de aproximação entre Trump e Kim.

Pyongyang não está apenas desenvolvendo armas e realizando testes. O país passou a fornecer equipamentos, munições e mísseis para a Rússia, além de enviar militares para apoiar Moscou na guerra contra a Ucrânia.

A participação norte-coreana se tornou um dos elementos mais importantes da relação entre Kim Jong-un e Vladimir Putin. Em uma mensagem divulgada nesta semana, Kim afirmou estar orgulhoso dos laços com a Rússia e prometeu aprofundar a cooperação entre os dois países.

Putin também afirmou recentemente que Rússia e Coreia do Norte estão coordenando ações relacionadas à segurança regional e que a cooperação entre os dois países ocorre em diversas áreas.

Mísseis no campo

A dimensão militar dessa parceria é ainda mais significativa. O 38 North analisou recentemente o emprego dos mísseis balísticos KN-23 norte-coreanos na guerra da Ucrânia. O armamento, de combustível sólido e lançado a partir de plataformas móveis, vem sendo utilizado pelas forças russas desde 2024.

A questão vai além do fornecimento de armas. Para a Coreia do Norte, a guerra representa uma oportunidade de observar seus equipamentos em um conflito de alta intensidade. O uso dos KN-23 contra a Ucrânia permite a Pyongyang obter informações sobre desempenho, confiabilidade e emprego operacional de seus sistemas de mísseis.

Destruição em Selydove, Ucrânia, após ataque russo com mísseis S-300 e norte-coreanos KN-23, em 8 de fevereiro de 2024 (Foto: WikiCommons)

O fenômeno cria uma situação incomum: enquanto a Rússia recebe armas de um dos países mais fechados do mundo, a Coreia do Norte recebe, na prática, experiência de guerra.

O Radio Free Europe/Radio Liberty informou nesta semana que autoridades ucranianas afirmam que Moscou voltou a utilizar armamentos norte-coreanos em ataques contra cidades ucranianas. O assunto também aparece em levantamentos recentes sobre a expansão das capacidades russas de ataques balísticos.

A aliança mudou

Esse é o ponto que diferencia a Coreia do Norte de alguns anos atrás. Kim Jong-un já não depende exclusivamente de Beijing para sustentar sua posição internacional. A aproximação com Moscou abriu uma segunda frente de apoio econômico, militar e diplomático.

A Rússia, por sua vez, encontrou em Pyongyang uma fonte de munições, mísseis e pessoal militar em um momento em que enfrenta dificuldades para sustentar uma guerra prolongada.

Uma reportagem da Defense News publicada neste mês citou informações da inteligência militar ucraniana segundo as quais a Coreia do Norte teria fornecido cerca de 4 milhões de projéteis de artilharia desde meados de 2023, além de mísseis balísticos KN-23 e KN-24.

A Coreia do Norte também estaria preparando novos contingentes para apoiar a Rússia. A Deutsche Welle informou neste fim de semana que agências de inteligência avaliam a possibilidade de Pyongyang enviar até 50 mil soldados, embora especialistas questionem se esse número será efetivamente alcançado.

Trump quer negociar

A redução dos exercícios, entretanto, não significa necessariamente que Washington esteja abandonando a estratégia de contenção da Coreia do Norte.

A interpretação apresentada por analistas é mais complexa. Trump pode estar tentando criar condições para retomar o diálogo direto com Kim Jong-un e, ao mesmo tempo, explorar uma possível brecha entre Pyongyang e Moscou.

A própria Reuters apontou que a decisão ocorre em meio à intensificação da cooperação entre Rússia e Coreia do Norte e que alguns analistas interpretam o movimento como uma tentativa de Trump de voltar a negociar com Kim.

A Coreia do Sul, por sua vez, sinalizou que espera que a redução das manobras possa abrir caminho para uma retomada das negociações com Pyongyang. A Associated Press informou que o governo sul-coreano manifestou esperança de que a decisão ajude a criar espaço para a diplomacia.

O risco estratégico

O problema é que a Coreia do Norte também mudou. Quando Trump e Kim se encontraram em 2018 e 2019, o objetivo americano era pressionar Pyongyang a abandonar ou limitar seu programa nuclear. Desde então, a Coreia do Norte ampliou seu arsenal e aprofundou relações militares com Rússia e China.

Agora, Kim chega a uma eventual negociação com mais armas, mais experiência militar e um parceiro estratégico poderoso em Moscou. É justamente aí que surge o paradoxo da decisão de Trump.

Os Estados Unidos podem estar reduzindo a pressão militar para tentar aproximar Kim da mesa de negociações, enquanto a guerra da Ucrânia aumenta a capacidade militar do próprio regime que Washington tenta conter.

Quem ganha?

A resposta ainda não está definida. Uma redução dos exercícios militares pode ajudar a diminuir tensões na Península Coreana e eventualmente criar condições para uma negociação direta entre Washington e Pyongyang.

Mas também existe o risco de que a medida seja interpretada como sinal de menor disposição americana para sustentar sua presença militar na região.

Para Seul, essa questão é especialmente sensível. Os exercícios conjuntos não são apenas uma demonstração política: eles servem para preparar as forças americanas e sul-coreanas para um eventual conflito com o Norte.

A Al Jazeera destacou que a decisão ocorre enquanto Pyongyang mantém sua atividade militar e fortalece seus vínculos com Moscou.

O resultado pode ser uma situação paradoxal: Trump tenta reduzir a tensão com Kim Jong-un, enquanto o ditador utiliza a guerra de Putin para aumentar sua capacidade militar.

Uma nova equação

A grande questão agora é saber se a estratégia de Trump conseguirá separar Kim Jong-un de Vladimir Putin ou se produzirá o efeito contrário.

A Coreia do Norte já encontrou na Rússia uma fonte de tecnologia, experiência e cooperação militar. Moscou encontrou em Pyongyang munições, mísseis e soldados.

Se Washington reduzir sua presença militar na Península Coreana sem conseguir obter concessões concretas de Kim, o resultado poderá ser uma alteração no equilíbrio regional.

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