Jornalista russa que protestou na TV diz que população desaprova ação militar

Em entrevista a um canal de TV dos EUA neste domingo (20), Marina Ovsyannikova disse que "o povo russo é contra a guerra"
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Em entrevista à rede norte-americana ABC transmitida no domingo (20), a jornalista russa Marina Ovsyannikova, que ficou conhecida no mundo por interromper um noticiário na TV estatal russa Canal 1 (Piervy Kanal) para protestar contra a invasão na Ucrânia, falou que uma grande parcela da população desaprova a decisão do presidente Vladimir Putin. Ela ainda instou os russos a protestarem contra a ação militar iniciada há quase um mês. As informações são da Radio Free Europe.

Ovsyannikova conversou com a emissora direto de Moscou, com o auxílio de um tradutor. “Você sabe, antes de tudo, quero dizer a todos: o povo russo é realmente contra a guerra”, disse, acrescentando que o conflito tem um responsável: “É a guerra de Putin, não a guerra popular russa”.

No dia 14 de março, a editora de telejornal se postou repentinamente atrás da apresentadora do telejornal da TV estatal segurando um cartaz escrito em russo e inglês que dizia “Não à guerra, não acredite na propaganda. Eles estão mentindo para você”. Ela ficou no ar durante vários segundos até que o canal a tirasse de cena. No dia seguinte, a Justiça russa a condenou pagar uma multa de 30 mil rublos (cerca de R$ 1,4 mil) sob a justificativa de uma “tentativa de organizar um protesto não autorizado”.

Ovsyannikova no momento em que levou seu protesto ao vivo durante o telejornal (Foto: Piervy Kanal/Captura de tela)

Indiciada por uma nova lei que pune a disseminação de “notícias falsas” sobre a ação militar coordenada pelo Kremlin em território ucraniano e sob o olhar das autoridades, Ovsyannikova diz que não pretende sair do país, tendo recusado uma oferta de asilo da França.

“Recusei publicamente pedir asilo político na França porque sou patriota. Não quero imigrar e perder mais dez anos da minha vida para me adaptar a outro país”, disse.

A jornalista classificou seu ato de repúdio como uma “decisão espontânea”, pautada nos sentimentos de insatisfação com o governo que, segundo ela, “vêm crescendo há anos”. Ovsyannikova acrescentou ainda que muitos de seus colegas de mídia nutrem a mesma sensação.


“A propaganda em nossos canais estatais estava se tornando cada vez mais distorcida, e a pressão aplicada na política russa não poderia nos deixar indiferentes”, justificou.

Ovsyannikova, que pediu demissão, disse que espera “talvez estimular algumas pessoas a se manifestarem contra a guerra”. Ela conta que tomou a decisão após dias de angústia decorrentes da atmosfera de trabalho.

“Assim que a guerra começou, eu não conseguia dormir, não conseguia comer. Vim para o trabalho e, após uma semana de cobertura dessa situação, a atmosfera [no Canal Um] era tão desagradável que percebi que não poderia voltar para lá”.

Por que isso importa?

A escalada de tensão entre Rússia e Ucrânia, que culminou com a efetiva invasão russa ao país vizinho na quinta-feira (24), remete à anexação da Crimeia pelos russos, em 2014, e à guerra em Donbass, que começou naquele mesmo ano e se estende até hoje.

O conflito armado no leste da Ucrânia opõe o governo central às forças separatistas das autodeclaradas Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk, que formam a região de Donbass e foram oficialmente reconhecidas como territórios independentes por Moscou. Foi o suporte aos separatistas que Putin usou como argumento para justificar a invasão, classificada por ele como uma “operação militar especial”.

“Tomei a decisão de uma operação militar especial”, disse Putin pouco depois das 6h de Moscou (0h de Brasília) de quinta (24), de acordo com o site independente The Moscow Times. Cerca de 30 minutos depois, as primeira explosões foram ouvidas em Kiev, capital ucraniana, e logo em seguida em Mariupol, no leste do país, segundo a agência AFP.

Para André Luís Woloszyn, analista de assuntos estratégicos, os primeiros movimentos no campo de batalha sugerem um conflito curto. “Não há interesse em manter uma guerra prolongada”, disse o especialista, baseando seu argumento na estratégia adotada por Moscou. “Creio que a Rússia optou por uma espécie de blitzkrieg, com ataques direcionados às estruturas militares“, afirmou, referindo-se à tática de guerra relâmpago dos alemães na Segunda Guerra Mundial.

O que também tende a contribuir para um conflito de duração reduzida é a decisão da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) de não interferir militarmente. “Não creio em envolvimento de outras potências no conflito, o que poderia desencadear uma guerra mais ampla e com consequências imprevisíveis”, disse Woloszyn, que é diplomado pela Escola Superior de Guerra.

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