Após atentado em Cabul, afegãs protestam contra ‘genocídio dos hazara’

Atentado suicida na sexta-feira matou dezenas de estudantes, principalmente mulheres com idade entre 18 e 24 anos

Dezenas de mulheres da minoria xiita hazara, no Afeganistão, protestaram em Cabul no sábado (1º) após um atentado suicida que matou dezenas de pessoas na sexta-feira (30), em um centro de ensino. As vítimas, em sua maioria jovens do sexo feminino pertencentes ao grupo étnico, se preparavam para ingressar no ensino superior. As informações são da rede Radio Free Europe.

A tragédia ocorreu após um homem-bomba invadir uma sala de aula no educandário, localizado em um bairro xiita, e acionar explosivos em seu corpo no momento em que centenas de estudantes faziam testes preparatórios com vistas ao ingresso em universidades da capital afegã.

Afegã ergue cartaz com dizeres “Pare o genocídio de Hazara” (Foto: Twitter/Reprodução)

De acordo com números apresentados pela polícia local, a estimativa é de que “pelo menos 20 pessoas” perderam a vida. A ONU (Organização das Nações Unidas) fez uma projeção mais assombrosa à agência de notícias AFP: seriam 53 mortos, entre eles 46 meninas e mulheres, além de 110 feridos.

Aproximadamente cem manifestantes caminharam no sábado (1º) até um hospital, onde as sobreviventes recebem tratamento. As mulheres desafiaram a repressão do Taleban, que não permite manifestações, gritando frases como “Pare o genocídio de Hazara” e “Não é um crime ser xiita”. Dezenas de combatentes talibãs fortemente armados assistiram ao protesto.

O bairro de Dashti Barchi, local do atentado, é habitado principalmente por pessoas da minoria étnica, que sofrem perseguição no país e nos últimos anos se tornaram um alvo preferencial do grupo extremista Estado Islâmico-Khorasan (EI-K). Entretanto, nenhuma organização assumiu oficialmente a autoria do atentado.

O professor universitário afegão Abu Muslim Shirzad compartilhou em sua conta no Twitter imagens que mostram o antes e depois da sala de aula atingida pelo ataque:

Em comunicado assinado pela gerente de campanha da Anistia Internacional para o Sul Ásia, Samira Hamidi, o grupo de direitos humanos declarou que o “ataque é um lembrete envergonhado da inépcia e fracasso absoluto do Taleban, como autoridades de fato, em proteger o povo do Afeganistão”.

Por que isso importa?

Um relatório publicado no início de setembro pela ONG Human Rights Watch (HRW) afirmou que o Taleban, governante de fato do Afeganistão, tem sido ineficiente em sua obrigação de proteger a população local, especialmente algumas minorias xiitas.

O documento foca particularmente no caso dos hazaras, uma minoria xiita que foi perseguida pelos próprios talibãs durante a passagem anterior do grupo pelo poder, entre 1996 e 2001. Atualmente, embora tenham se aproximado dos radicais que governam o país, tornaram-se alvo frequente do EI-K.

De acordo com dados divulgados pela HRW, o EI-K assumiu a autoria de 13 ataques contra os hazaras desde 15 de agosto de 2021, quando o Taleban chegou ao governo, e pode ter sido responsável por ao menos outros três atentados não reivindicados. Setecentas pessoas morreram ou ficaram feridas nessas ações.

O descaso com a minoria xiita contraria uma das muitas promessas feitas pelo Taleban quando chegou ao poder. “Como governo responsável, somos encarregados de proteger todos os cidadãos do Afeganistão, especialmente as minorias religiosas do país”, disse em outubro de 2021 o porta-voz do Ministério do Interior Saeed Khosty.

A HRW cita o caso das explosões que atingiram a Escola Abdul Rahim Shahid de ensino médio, no bairro predominantemente hazara e xiita de Dasht-e-Barchi, em Cabul, no dia 19 de abril. Entre alunos, professores e funcionários, 20 pessoas foram mortas ou feridas na ação do EI-K. Uma segunda explosão ainda foi relatada no Centro Educacional Mumtaz, a alguns quilômetros de distância.

Além de cobrar uma mudança de postura do Taleban, a fim de melhor proteger as minorias atingidas pelo EI-K, o relatório reivindica uma ação global que pressione os governantes afegãos nesse sentido.

“Os governos envolvidos com o Taleban devem exigir uma melhor proteção das comunidades hazara e xiita e devem incentivar e apoiar mecanismos para fortalecer a responsabilidade por crimes cometidos no Afeganistão, inclusive contra as comunidades hazara e xiita”, diz a ONG.

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