Segurança Internacional

Presidente ucraniano impediu operação que prenderia 33 mercenários russos

Bellingcat e Insider afirmam que a inteligência ucraniana tinha planos de forçar o pouso de um avião no país com dezenas de paramilitares russos ligados ao Wagner Group a bordo

A prisão de 33 mercenários russos, que ocorreria em uma operação conjunta de agências de inteligência da Ucrânia, foi por água abaixo após uma ordem do presidente Volodymyr Zelensky para abortar a ação. A informação foi revelada pelos veículos investigativos The Insider, da Rússia, e Bellingcat, da Holanda, e reproduzidas pela rede Radio Free Europe.

A revelação surgiu graças a um trabalho investigativo que levou um ano para ser concluído, cujo resultado foi divulgado nesta quarta-feira (17). Os veículos afirmam que a inteligência militar ucraniana tinha planos de, sob falso pretexto, desviar a rota de um avião e forçar o pouso no país com dezenas de paramilitares russos ligados ao Wagner Group a bordo, num trajeto que ia de Belarus à Turquia, em junho de 2020.

O pouso forçado seria o desfecho de uma ação policial idealizada entre o serviço de inteligência militar do país e o departamento de contraespionagem do Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU). Segundo aponta a investigação jornalística, com a aeronave em terra, os combatentes, que atuaram no suporte a forças antigovernamentais com o apoio de Moscou em Donbass, leste da Ucrânia, receberiam voz de prisão.

O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, em Kiev, abril de 2021 (Foto: Reprodução/Twitter/Volodymyr Zelenskiy)

O plano começou a dar errado quando, a poucos dias da decolagem do avião de Minsk rumo a Istambul, o presidente Zelensky acenou positivamente para um cessar-fogo no conflito na região oriental da Ucrânia. Segundo a reportagem, Vasyl Burba, chefe da inteligência militar à época e responsável por supervisionar a operação, disse que o gabinete presidencial adiou a operação policial por vários dias devido a temores de que isso prejudicaria o acordo de trégua.

“De acordo com Burba, a posição do Gabinete era de que, caso a se a operação policial continuasse como planejado e culminasse com prisões em 25 de julho, o cessar-fogo estaria morto antes de começar”, relatou a investigação.

Zelensky, o chefe de Gabinete Andriy Yermak e as agências de inteligência do país negam que as autoridades ucranianas tenham idealizado o suposto plano, que poderia ter repercutido em um alvoroço internacional se tivesse sido orquestrado, particularmente pelo fato de que é ilegal desviar um avião sob falsos pretextos.

Em comentário à reportagem da Radio Free Europe nesta quarta (17), após a publicação do trabalho investigativo, a assessoria de Zelensky disse que “é política do Gabinete do Presidente e do governo ucraniano não comentar sobre a existência ou não existência de quaisquer operações de inteligência”.

Comissão inconclusiva

O Bellingcat e o The Insider afirmam que a reportagem foi sustentada com base em “entrevistas com indivíduos envolvidos na operação, uma grande quantidade de evidências documentais e verificação de código aberto das alegações”. Segundo os veículos, várias fontes falaram sob anonimato por segurança ou por não estarem autorizadas a falar.

A reportagem contradiz diretamente uma das conclusões anunciadas no dia anterior por uma comissão parlamentar ucraniana criada para investigar o assunto. A chefe do comitê, Maryana Bezuhla, declarou à imprensa na segunda-feira (15) que não havia evidências de que Zelensky tivesse adiado a operação, e a comissão não foi capaz de determinar quem ou o que causou o adiamento.

Presos em Belarus

Os mercenários chegaram a Belarus em 25 de julho e foram presos quatro dias depois pela KGB belarussa em um hotel nos arredores de Minsk. Eles foram acusados pela Justiça local de tentar desestabilizar o país antes das eleições presidenciais de 9 de agosto, nas quais o autoritário Alexander Lukashenko, no poder desde 1994, enfrentou um espinhoso desafio da oposição pró-democracia. Mais tarde, os combatentes foram enviados de volta para a Rússia.

A reportagem levantou que a maioria dos homens visados ​​na operação “em algum momento serviram como mercenários” para o Grupo Wagner na Ucrânia, Síria, Líbia ou República Centro-Africana (CAR). A saga ficou conhecida na Ucrânia como Wagnergate.