Autoridades da Região Autônoma Uigur de Xinjiang, no oeste da China, estão ameaçando deter moradores que baixem, ouçam ou compartilhem músicas em língua uigur consideradas proibidas pelo governo. A informação consta em uma gravação de reunião entre policiais e autoridades locais na cidade de Kashgar, obtida com exclusividade pela Associated Press (AP).
Entre as canções citadas está ‘Besh Pede’, uma balada folclórica tradicional uigur, historicamente tocada em casamentos e celebrações familiares. Segundo o áudio, pessoas encontradas com músicas classificadas como “problemáticas” em seus celulares ou redes sociais podem ser presas ou submetidas a detenções administrativas.

Durante a reunião, autoridades também instruíram moradores a evitar expressões religiosas comuns, como a saudação “As-salamu alaykum”, e a substituir despedidas tradicionais que fazem referência a Deus por frases que exaltam o Partido Comunista Chinês (PCC).
A política foi confirmada por entrevistas com ex-moradores de Xinjiang, que relataram detenções de familiares e conhecidos por compartilhar ou armazenar músicas uigures. A AP também teve acesso à sentença de um produtor musical uigur condenado a três anos de prisão por publicar canções consideradas sensíveis em uma plataforma de streaming chinesa.
A repressão à música se insere em um contexto mais amplo de controle cultural e religioso na região. Entre 2017 e 2019, pelo menos um milhão de uigures e membros de outras minorias étnicas foram detidos extrajudicialmente, segundo governos estrangeiros e organizações de direitos humanos. Em 2022, um relatório das Nações Unidas apontou possíveis crimes contra a humanidade cometidos em Xinjiang.
O governo chinês afirma que as medidas visam combater o terrorismo e o extremismo religioso e rejeita as acusações de abusos, alegando que forças estrangeiras distorcem a situação na região.
Embora Beijing declare que os campos de detenção foram fechados desde 2019 e promova Xinjiang como destino turístico, especialistas afirmam que o controle persiste de forma menos visível. Além da proibição de músicas, há relatos de inspeções frequentes em celulares, expansão de internatos onde crianças aprendem majoritariamente em mandarim e restrições à prática religiosa.
Autoridades chinesas listam ao menos sete categorias de músicas consideradas problemáticas, que vão de músicas folclóricas com referências religiosas a canções associadas a artistas uigures presos. Algumas delas chegaram a ser exibidas anteriormente na televisão estatal chinesa, mas hoje são classificadas como ilegais.
Casos relatados à AP incluem detenções de adultos e adolescentes por compartilharem músicas uigures em aplicativos de mensagens. As punições variam de detenções curtas a condenações a anos de prisão, sem critérios claros divulgados publicamente.
Por que isso importa?
A província de Xinjiang faz fronteira com países da Ásia Central, com quem divide raízes linguísticas e étnicas. Ali vive a comunidade uigur, uma minoria muçulmana de raízes turcas que sofre perseguição do governo chinês, com acusações de abusos diversos.
Os uigures, cerca de 11 milhões, enfrentam discriminação da sociedade e do governo chinês e são vistos com desconfiança pela maioria han, que responde por 92% dos chineses. Denúncias dão conta de que Beijing usa de tortura, esterilização forçada, trabalho obrigatório e maus tratos para realizar uma limpeza étnica e religiosa em Xinjiang.
Em agosto de 2022, a ONU divulgou um aguardado relatório que fala em “graves violações dos direitos humanos” cometidas em Xinjiang. O documento destaca “padrões de tortura ou maus-tratos, incluindo tratamento médico forçado e condições adversas de detenção”, bem como “alegações de incidentes individuais de violência sexual e de gênero”.
O relatório, porém, não citou a palavra “genocídio” usada por alguns países ocidentais. O governo do presidente Joe Biden, dos EUA, foi o primeiro a usar o termo para descrever as ações da China em relação aos uigures. Em seguida, Reino Unido e Canadá também passaram a usar a designação, e a Lituânia se juntou ao grupo mais recentemente.
A China nega as acusações de que comete abusos em Xinjiang e diz que as ações do governo na região têm como finalidade a educação contraterrorismo, a fim de conter movimentos separatistas e combater grupos extremistas religiosos que eventualmente venham a planejar ataques terroristas no país. Beijing costuma classificar as denúncias como “a mentira do século”.