A África Oriental vive um debate cada vez mais intenso sobre o futuro das roupas usadas importadas, conhecidas como “mitumba”. Governos da região tentam reduzir a entrada de peças vindas dos Estados Unidos, Europa e China para impulsionar a indústria têxtil local, mas enfrentam resistência de comerciantes, consumidores e trabalhadores que dependem do setor. As informações são da BBC.
O tema voltou ao centro das discussões após Uganda anunciar uma nova taxa ambiental de 30% sobre roupas usadas importadas. A medida se soma a uma tarifa já existente de 35% e ao IVA de 18%, elevando significativamente o custo das mercadorias.
O governo ugandense afirma que a iniciativa busca proteger a economia local e reduzir os impactos ambientais causados pelo descarte de roupas de baixa qualidade. No entanto, comerciantes afirmam que o setor sustenta milhões de pessoas em toda a África Oriental.

No Quênia, o debate também ganhou força após o governo propor mudanças no sistema tributário das roupas usadas. A reação popular foi imediata, com temor de aumento nos preços. Diante da pressão, a proposta acabou retirada do projeto de lei financeiro.
Mesmo com tarifas elevadas, o Quênia segue como o maior importador africano de roupas usadas. Dados da ONU apontam que o país recebeu quase 180 mil toneladas de peças usadas em 2022, crescimento de 76% em relação a 2013.
A popularidade do setor está ligada principalmente ao preço acessível e à percepção de qualidade. Em cidades como Nairóbi e Dar es Salaam, mercados especializados em roupas usadas continuam movimentando milhares de consumidores diariamente.
Além do fator econômico, especialistas apontam um dilema industrial. Estilistas e fabricantes locais defendem restrições mais rígidas às importações para fortalecer marcas africanas e ampliar a produção interna.
Por outro lado, críticos afirmam que a indústria têxtil regional ainda não possui estrutura suficiente para substituir completamente o mercado de roupas usadas.
Ruanda foi o único país da Comunidade da África Oriental a manter políticas mais rígidas contra o mitumba após pressões dos Estados Unidos em 2015. O país elevou drasticamente impostos sobre roupas usadas e afirma ter fortalecido sua produção têxtil local.
Mesmo assim, autoridades ruandesas reconhecem que ainda existem limitações industriais e crescimento do consumo de roupas baratas importadas da China e da Turquia.
A discussão também envolve questões ambientais. Organizações internacionais alertam que parte significativa das roupas exportadas para países africanos acaba em aterros sanitários devido à baixa qualidade das peças.
Segundo a organização ambiental Greenpeace, muitos países da região não possuem infraestrutura adequada para lidar com o aumento dos resíduos têxteis.