Afeganistão vê aumento de meninas vendidas para casamento infantil sob governo do Taleban

Crise econômica, restrições impostas pelos insurgentes e fechamento das escolas para meninas impulsionam o crescimento dos casamentos infantis e das gestações precoces no país

O Afeganistão enfrenta um aumento alarmante dos casos de casamento infantil, em um cenário marcado pela crise econômica, pelo agravamento da pobreza e pelas restrições impostas pelo governo do Taleban às mulheres e meninas. Uma reportagem publicada pelo The Guardian em parceria com o Zan Times revela que famílias endividadas estão recorrendo à venda de filhas ainda crianças para quitar dívidas ou garantir alimento.

Entre os casos relatados está o de Sima, de 18 anos, que foi obrigada a se casar aos 13 após a retomada do poder pelo Taleban em 2021. Desde então, ela deu à luz quatro vezes. Um de seus filhos morreu ainda bebê. Sem acesso à educação e sem possibilidade de trabalhar, ela vive em situação de extrema vulnerabilidade ao lado da família.

O fenômeno reflete uma realidade cada vez mais comum no país. Profissionais de saúde entrevistados pela reportagem afirmam que o número de meninas menores de idade que chegam aos hospitais para dar à luz aumentou significativamente nos últimos anos. Em apenas cinco meses, um hospital do norte do Afeganistão registrou 42 partos de adolescentes menores de idade.

Jovem estudante afegã (Foto: WikiCommons)
Crise amplia vulnerabilidade

Especialistas apontam que a combinação entre pobreza extrema e restrições aos direitos das mulheres tem contribuído para o crescimento dos casamentos infantis. Desde a volta do Taleban ao poder, milhões de meninas foram impedidas de continuar os estudos após a sexta série, reduzindo ainda mais suas perspectivas de futuro.

Dados das Nações Unidas indicam que cerca de 28 milhões de afegãos não conseguem atender às necessidades básicas de sobrevivência. Além disso, mais de 80% das famílias convivem com algum nível de endividamento. Diante desse cenário, algumas famílias optam por prometer filhas em casamento ainda bebês em troca de dinheiro ou do perdão de dívidas.

A reportagem ouviu famílias que venderam meninas com menos de nove anos de idade para futuros casamentos. Em alguns casos, os acordos determinam que as crianças sejam entregues aos futuros maridos quando completarem entre sete e nove anos.

Gravidez precoce

Profissionais da saúde alertam que a gravidez na adolescência representa riscos graves tanto para as mães quanto para os bebês. Meninas que engravidam antes de concluir seu desenvolvimento físico enfrentam maior probabilidade de complicações como hemorragias, anemia, aborto espontâneo, parto prematuro e mortalidade materna.

Segundo um relatório do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), o Afeganistão registra uma das mais altas taxas de mortalidade materna do mundo, com cerca de 600 mortes para cada 100 mil nascidos vivos.

A falta de acesso à educação e às oportunidades de trabalho também dificulta que mulheres jovens conquistem independência financeira, perpetuando ciclos de pobreza e dependência.

Casamento infantil

Antes da retomada do poder pelo Taleban, a legislação afegã criminalizava o casamento de meninas com menos de 15 anos. No entanto, um decreto publicado neste ano deixou de estabelecer uma idade mínima para o casamento, ampliando as preocupações de organizações de direitos humanos.

Entidades internacionais alertam que a continuidade das restrições à educação feminina e a redução da ajuda internacional podem agravar ainda mais a situação das meninas afegãs. Para muitas famílias, a venda de filhas tornou-se uma estratégia desesperada de sobrevivência em meio à crise.

Misoginia

Desde o colapso do governo afegão, a repressão contra mulheres e meninas tem sido marca do Taleban. Elas não podem estudar, trabalhar ou sair de casa desacompanhadas de um homem. A perda do salário por parte de muitas mulheres que sustentavam suas casas tem contribuído para o empobrecimento da população afegã. E foram relatados casos de solteiras ou viúvas forçadas a se casar com combatentes.

Em 2023, os radicais proibiram inclusive o trabalho das mulheres afegãs em organizações não governamentais e na ONU (Organização das Nações Unidas), o que levou muitas dessas entidades a suspenderem a ajuda humanitária que ofereciam à população do Afeganistão, uma das mais necessitadas de tal suporte em todo o mundo.

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