Enquanto mulheres perdem direitos, Taleban ganha espaço para diálogo na Europa

União Europeia afirma que diálogo será apenas técnico e voltado à migração, mas organizações de direitos humanos acusam o bloco de legitimar um regime acusado de apartheid de gênero

A União Europeia (UE) se prepara para receber representantes do Taleban em Bruxelas pela primeira vez desde a retomada do poder pelos militantes no Afeganistão, em 2021. O encontro, previsto para ocorrer nos dias 22 ou 23 de junho, tem como objetivo discutir questões relacionadas à migração e à repatriação de cidadãos afegãos, segundo autoridades europeias. As informações são da Radio Free Europe.

Apesar de insistir que o diálogo não representa reconhecimento formal do governo talibã, a iniciativa provocou críticas de parlamentares, ativistas e organizações de direitos humanos. Os opositores argumentam que a reunião pode fortalecer a legitimidade internacional de um regime acusado de promover graves violações dos direitos das mulheres e das liberdades civis.

A delegação afegã será liderada por Abdul Qahar Balkhi, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Taleban. Durante a visita, estão previstas reuniões com representantes da Comissão Europeia, do Serviço Europeu de Ação Externa e de governos de países-membros.

Membros e apoiadores do Taleban participam de uma celebração em Cabul, capital do Afeganistão, em setembro de 2022, um ano após o grupo retomar o controle do país (Foto: WikiCommons)
Direitos das mulheres no centro das críticas

A polêmica ocorre em meio a novos relatos sobre a repressão às mulheres no Afeganistão. Desde que voltou ao poder, o Taleban restringiu o acesso feminino à educação, ao trabalho e à vida pública.

Dados apresentados recentemente ao Conselho de Segurança das Nações Unidas indicam que cerca de 3,8 milhões de meninas afegãs entre 7 e 18 anos continuam sem acesso à educação. A ONU estima que outras 250 mil meninas sejam excluídas do ensino secundário a cada ano.

Na última semana, relatos apontaram que mulheres foram detidas na província de Herat por supostas violações das regras de vestimenta impostas pelo regime. Também houve denúncias de que forças da polícia moral abriram fogo contra manifestantes durante protestos por direitos e liberdade.

Parlamentares europeus questionam encontro

A eurodeputada belga Saskia Bricmont afirmou que permitir a presença de representantes do Taleban em Bruxelas envia uma mensagem política preocupante diante das denúncias de violações sistemáticas dos direitos humanos.

Outra integrante do Parlamento Europeu, Hannah Neumann, também criticou a iniciativa e afirmou que o encontro pode ser interpretado como uma forma de legitimação internacional do regime afegão.

Por outro lado, autoridades da União Europeia sustentam que o diálogo é necessário para tratar de temas práticos relacionados à migração. O comissário europeu para Assuntos Internos e Migração, Magnus Brunner, defendeu o contato com governos como o do Talibã para discutir deportações e cooperação técnica.

Migração pressiona países europeus

A questão migratória tem ganhado peso na agenda europeia. Segundo o Conselho Europeu para Refugiados e Exilados, mais de 1,6 milhão de afegãos deixaram o país desde a volta do Talibã ao poder.

Na Europa, os afegãos representam atualmente o segundo maior grupo de solicitantes de asilo, atrás apenas dos sírios. Diversos países do bloco defendem a retomada de mecanismos de cooperação para facilitar o retorno de imigrantes com pedidos de refúgio negados.

Especialistas alertam, entretanto, que qualquer aproximação diplomática com o Taleban pode enfraquecer a pressão internacional sobre o regime e reduzir o foco nas denúncias de violações dos direitos humanos, especialmente contra mulheres e meninas.

Misoginia

Desde o colapso do governo afegão, a repressão contra mulheres e meninas tem sido marca do Taleban. Elas não podem estudar, trabalhar ou sair de casa desacompanhadas de um homem. A perda do salário por parte de muitas mulheres que sustentavam suas casas tem contribuído para o empobrecimento da população afegã. E foram relatados casos de solteiras ou viúvas forçadas a se casar com combatentes.

Em 2023, os radicais proibiram inclusive o trabalho das mulheres afegãs em organizações não governamentais e na ONU (Organização das Nações Unidas), o que levou muitas dessas entidades a suspenderem a ajuda humanitária que ofereciam à população do Afeganistão, uma das mais necessitadas de tal suporte em todo o mundo.

Tags: