Otan coloca a China contra a parede pelo apoio militar ‘decisivo’ à Rússia e promete retaliação

Em declaração dos 32 membros, aliança acusa Beijing de fornecer 'apoio material e político ao esforço de guerra' de Moscou

“Facilitador decisivo da guerra da Rússia contra a Ucrânia.” Assim a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) se referiu à China na cúpula que a aliança realiza nesta semana em Washington, nos EUA. A afirmação está registrada em uma declaração assinada pelos chefes de Estado e de governo que cobra de Beijing o fim da entrega de “componentes de armas” cruciais a Moscou, com a promessa de retaliação contra o país asiático.

“A parceria estratégica cada vez mais profunda entre a Rússia e a RPC (República Popular da China) e suas tentativas de reforço mútuo para minar e remodelar a ordem internacional baseada em regras são motivo de profunda preocupação”, afirma a Otan no documento. “Somos confrontados por ameaças híbridas, cibernéticas, espaciais e outras e atividades maliciosas de atores estatais e não estatais.”

O documento destaca a parceria “sem limites” entre russos e chineses, termo usado pelos dois países para definir sua aliança em fevereiro de 2022, ainda antes do início da guerra da Ucrânia. De lá para cá, os dois se aproximaram ainda mais, com frequentes denúncias de que empresas chinesas, com a conivência do governo, têm entregado aos russos itens de dupla utilização que podem ser implantados em armas.

Cúpula da Otan em Washington, julho de 2024 (Foto: Nato/Facebook)

Embora alguns aliados, com destaque para os EUA, já tivessem denunciado o apoio militar chinês a Moscou, a declaração desta quarta-feira (10) marca a primeira vez que a Otan o faz como aliança, de acordo com o jornal The New York Times. Os 32 países-membros citam na carta a “transferência de materiais de uso duplo, como componentes de armas, equipamentos e matérias-primas que servem como insumos para o setor de defesa da Rússia.”

O texto, então, insta Beijing a “cessar todo o apoio material e político ao esforço de guerra da Rússia” e promete retaliações, mas não explica quais medidas serão adotadas. Diz apenas que a China “não pode permitir a maior guerra na Europa na história recente sem que isso tenha um impacto negativo em seus interesses e reputação.”

Em junho, o secretário-geral Jens Stoltenberg já havia pedido punições à China por seu apoio à Rússia, também sem dizer que tipo de medidas seriam cabíveis. “Beijing não pode ter as duas coisas. Em algum momento, e a menos que a China mude de curso, os aliados precisam impor um custo. Deve haver consequências”, disse ele na oportunidade, de acordo com a rede Radio Free Europe (RFE).

Conforme artigo publicado em maio pelo o think tank Carnegie Endowment for International Peace, a China exporta mensalmente mais de US$ 300 milhões em produtos de dupla utilização identificados por EUA, União Europeia (UE), Japão e Reino Unido. São itens de “alta prioridade” necessários para produzir armas, alimentando assim a máquina de guerra da Rússia de forma decisiva.

“Embora as transações mensais tenham diminuído de um pico de mais de US$ 600 milhões em dezembro de 2023, a China continua sendo o maior fornecedor destes produtos controlados à Rússia”, diz o artigo assinado por Nathaniel Sher, especialista nas relações EUA-China. “Os itens de alta prioridade referem-se a 50 produtos de dupla utilização que são essenciais para a fabricação de armas como mísseis, drones e tanques. Muitos são produtos que a Rússia não tem capacidade para produzir internamente.”

Além de ressaltar o apoio à Rússia, o que representa uma ameaça indireta à aliança devido ao risco de uma futura agressão russa a membros da Otan, o documento também vê a China como um ameaça direita. Entre os “desafios sistêmicos à segurança euro-atlântica” oferecidos por Beijing, a aliança destaca os ataques cibernéticos, a desinformação, as capacidades aeroespaciais e a ampliação do arsenal nuclear.

“Continuamos abertos ao envolvimento construtivo com a RPC, inclusive para construir transparência recíproca com a visão de salvaguardar os interesses de segurança da aliança”, diz o texto. “Ao mesmo tempo, estamos aumentando nossa conscientização compartilhada, aumentando nossa resiliência e preparação e protegendo contra as táticas coercitivas e os esforços da RPC para dividir a aliança.”

O Ministério das Relações Exteriores chinês reagiu à declaração, afirmando que a Otan “exagera” ao responsabilizar o país pela “questão da Ucrânia”. Diz ainda que tal manifestação é “irracional e tem motivos sinistros”, de acordo com a agência Associated Press (AP).

A manifestação de Beijing, veiculada pelo porta-voz Lin Jian, ainda questiona a presença crescente da aliança na Ásia. “A China pede que a Otan pare de interferir na política interna da China e de difamar a imagem do país e não crie caos na Ásia-Pacífico depois de criar turbulência na Europa”, disse ele.

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