Ásia e Pacífico

Após dois meses, OMS chega ao Turcomenistão, onde “não há” Covid-19

Agência da ONU tentava há dois meses entrar no país, sem sucesso; país afirma não ter registrado casos de Covid-19

A OMS (Organização Mundial da Saúde) chegou no Turcomenistão nesta segunda (6) para uma missão de dez dias, após dois meses tentando entrar no país, segundo a norte-americana Radio Free Europe.

A demora para a entrada dos funcionários da agência da ONU no país foi justificada pelas medidas de restrição de viagem impostas pela pandemia do novo coronavírus.

Ditadura fechada, o Turcomenistão é a única nação da Ásia Central que diz oficialmente não ter registrado casos de coronavírus. A política turcomena é de esconder qualquer referência a problemas.

Segundo a Parceria Internacional para os Direitos Humanos, o governo afirma que as políticas servem para “prevenir o pânico” na população. Médicos e enfermeiros têm sido silenciados.

O grupo da OMS deve trabalhar com as autoridades turcomenas na preparação e resposta ao Covid-19, com sistemas de condenação e controle em nível nacional, epidemiologia e vigilância, além de investigar a suposta inexistência de casos no país.

A líder da missão disse ainda que o governo do presidente Gurbanguly Berdymukhammedov teria estabelecido uma força-tarefa nacional contra o coronavírus e desenvolvido diretrizes para prevenção, diagnóstico e tratamento, entre outras medidas.

Apesar de o regime negar casos de infecção pelo vírus, relatórios citando médicos, funcionários e residentes locais apontam um número significativo de pessoas hospitalizadas com os sintomas recorrentes da doença.

Os correspondentes da Radio Free Europe relataram à HRW (Human Rights Watch) um surto de “pneumonia” em todo o país em maio.

O governo mantém as atividades normais no país. Escolas continuam abertas e campeonatos esportivos não foram paralisados. Eventos de grande aglomeração ainda estão sendo promovidos.

OMS chega ao Turcomenistão, ditadura que tenta esconder Covid-19
Inauguração de prédios residenciais na capital turcomena, Asgabate, em junho (Foto: Governo do Turcomenistão/Reprodução)

Dobradinha personalista

O Turcomenistão é um dos países mais fechados do mundo. O presidente Gurbanguly Berdymukhammedov chegou ao poder em 2007. Era vice de seu antecessor, morto em 2006, Saparmurat Niyazov, conhecido como “pai dos turcomenos”.

Niyazov fez carreira como burocrata do Partido Comunista soviético e chegou ao cargo mais alto do Executivo do país em 1985.

Em 1999, foi agraciado pelo Parlamento com o título de “presidente vitalício” após uma “eleição” com candidatos escolhidos pelo presidente e sem opositores.

O país dispõe da quarta maior reserva de gás natural do mundo. Entre 1993 e 2017, o governo subsidiava a totalidade das contas de água, energia elétrica e gás da população, explicou o jornal turco “Hurriyet“.

O benefício terminou depois que a Rússia diminuiu suas compras de gás do país, o que derrubou a receita local.

Onde fica o Turcomenistão (Foto: Reprodução/Google Maps)