Ásia e Pacífico

Hong Kong amplia repressão contra mídia e faz novo ataque ao extinto Apple Daily

Secretário de Segurança do território cobra associação de jornalistas para que revele o nome de todos os seus membros e quais deles são estudantes

Chris Tang, secretário de Segurança de Hong Kong, iniciou um movimento repressivo para que a principal associação de imprensa do país forneça os nomes de seus membros e informe quantos deles são estudantes. Ele acusa a Associação dos Jornalistas de Hong Kong (HKJA, na sigla em inglês) de se infiltrar na escolas para recrutar os alunos, segundo a agência Reuters.

“Acredito que, se eles deixarem abertamente o público saber a informação, seus nomes estarão limpos”, disse Tang, um dos mais importantes representantes de Beijing na repressão imposta por Hong Kong contra os movimentos democráticos que contestam o domínio chinês sobre o território. Ao cobrar a revelação dos nomes dos jornalistas, ele disse que não se trata de uma exigência meramente estatal, e sim de um questionamento de “muitos na sociedade”.

Cidadã de Hong Kong lê o jornal Apple Daily em outubro de 2020 (Foto: Wikimedia Commons)

Nesta quinta-feira (16), Tang também determinou o congelamento das atividades da gráfica do extinto jornal Apple Daily, que seguia em atividade para produção somente de conteúdo terceirizado.

O impresso, que emitiu sua última edição em junho deste ano, foi sufocado financeiramente por Beijing através do congelamento de ativos da companhia Next Digital, da qual faz parte e que pertence ao empresário Jimmy Lai, crítico fervoroso do governo chinês.

“Isso pode ser visto como um evento significativo, que pôs fim a uma era em que representantes estrangeiros e forças separatistas podiam se intrometer imprudentemente nos assuntos internos da China, cultivando agentes, como o fundador do jornal, Jimmy Lai, e seu grupo de mídia“, diz um artigo publicado pelo jornal estatal chinês Global Times.

Lai é o principal alvo da repressão chinesa em Hong Kong, e atualmente está preso com base na lei de segurança nacional, por organizar e participar de um protesto contra o domínio chinês em 2019.

Militares já haviam detido Lai há dois anos, por “conluio com forças estrangeiras”. Libertado sob fiança, ele voltou à prisão em dezembro de 2020, acusado de usar a sede de sua empresa para “fins não permitidos”, o que um juiz classificou como “fraude”.

A repressão estatal também levou, recentemente, ao encerramento das atividades do Sindicato dos Professores Profissionais, o maior de Hong Kong. A entidade foi alvo de críticas por parte da mídia estatal chinesa por “politizar” a educação.

Por que isso importa?

Após a transferência de Hong Kong do domínio britânico para o chinês, em 1997, o território passou a operar sob um sistema mais autônomo e diferente do restante da China. Ainda assim, a submissão a Beijing sempre foi muito forte, o que levou a protestos em massa a favor da independência, em 2019.

A resposta de Beijing aos protestos veio através da lei de segurança nacional, que deu ao governo poder de reprimir a oposição. A normativa legal classifica e criminaliza qualquer tentativa de “intervir” nos assuntos locais como “subversão, secessão, terrorismo e conluio”. Infrações graves podem levar à prisão perpétua.