Ásia e Pacífico

Passagem de aviões militares chineses por Estreito de Taiwan seria ‘recado’

Investida da artilharia de Beijing visa demonstrar força em meio à maior aproximação entre Taipé e os EUA em 20 anos

Dezenas de aviões militares cruzaram os céus do Estreito de Taiwan nos dias 18 e 19, aumentando a temperatura das já complicadas relações entre Beijing e a ilha. O portal World Politics Review registrou a ofensiva nesta segunda (28).

A mensagem de força seria mais um sinal do descontentamento da China com a recente aproximação da ilha dos Estados Unidos.

No dia 24, Beijing negou a existência de uma “linha mediada” entre os dois países. A marca separa os territórios da China e de Taiwan e foi estabelecida com mediação dos EUA em 1955.

Temor de guerra aumenta com aviões militares chineses no Estreito de Taiwan
Capital de Taiwan, Taipé, em janeiro de 2018 (Foto: WikiCommons)

Washington já tem estabelecidas formas de lidar com a ilha e escapar de sanções de Beijing por meio de uma lei elaborada logo após o país abriu mão do reconhecimento oficial de Taiwan, em 1979.

A norma prevê que se mantenha oficialmente a política de “uma só China”, mas permite auxílio informal aos taiwaneses para subsídios de autodefesa. Dessa forma, Washington pode respeitar uma das mais importantes condições para a retomada das relações com Beijing, em 1971.

Afastamento e centralização

Questão sensível nas relações bilaterais já deterioradas pela disputa comercial de Beijing e Washington, Taiwan tem reforçado o seu exército com o auxílio norte-americano há pelo menos um ano.

As relações entre os norte-americanos e os taiwaneses atingiram sua maior proximidade em cerca de 20 anos durante o governo de Donald Trump.

Até então, era vigente a tese de que o envolvimento de Beijing com o mundo liberal democrático ensejaria uma demanda natural por instituições mais livres dentro do sistema político chinês.

Não foi o que aconteceu. Em Beijing, tornou-se cada vez mais evidente a política de endurecimento do poder por parte de Xi Jinping, forjada a partir do Congresso de Partido Comunista de 2012.

A partir de 2017, o empresário de Nova York chega à Presidência com uma plataforma de campanha que enfatizava a beligerância contra os chineses. A consequência foi a guerra comercial que se seguiu.

Província rebelde

Com o argumento de “uma só China”, Beijing reivindica a ilha como seu território desde a revolução comunista, em 1949, e já expôs os “riscos” que envolvem a relação de Taipé com os EUA.

Nesta quarta (30), Beijing destacou em um comunicado a sua “forte indignação” pelos comentários da representante dos EUA na ONU (Organização das Nações Unidas), Kelly Craft.

Segundo a agência de notícias oficial Xinhua News, Clark teria “minado a soberania” chinesa em um evento online organizado pelo governo de Taiwan. “Existe apenas uma China no mundo e Taiwan é uma parte inalienável do território chinês”, afirma.

Em “Sobre a China”, o ex-secretário de Estado e principal teórico da reaproximação Henry Kissinger relata que o líder chinês Mao Tsé-tung no dizia que a recaptura de Taiwan ocorreria, mesmo que levasse “100 anos”.