Ásia e Pacífico

Rússia terá de lidar com instabilidade em suas fronteiras, diz pesquisador

Governo não vê democracia liberal como saída e por isso tem adota pragmatismo com autocracias em seu entorno

O cenário de maior instabilidade nas bordas da Rússia vai continuar e tem uma parcela grande de culpa de Moscou, que optou pela manutenção de ditadores nesses países como Belarus e as repúblicas da Ásia Central.

Quem avalia é Matthew Rojansky, do Wilson Center, instituto de pesquisa norte-americano, em entrevista ao World Politics Review. “A Rússia fez sua cama e agora terá de deitar nela”, afirmou.

Para o especialista, o problema vem do fato de que, em sua área de influência, a Rússia reserva para si uma espécie de “direito de veto” caso chegue ao poder um nome pouco amistoso para com Moscou nesses países.

Rússia terá de lidar com instabilidade em suas fronteiras, diz pesquisador
O presidente da Rússia, Vladimir Putin, e seu chanceler, Sergei Lavrov, em imagem de 2015 (Foto: UN Photo/Cia Pak)

Por permitir autocratas e ditadores como Aleksander Lukashenko em Belarus, Ilham Aliyev no Azerbaijão ou Nursultan Nazarbayev no Cazaquistão, agora terá de lidar com manifestações que pedem sistemas mais transparentes e democráticos nesses países.

Política externa

Ao contrário dos EUA, argumenta Rojansky, a Rússia tem seus principais desafios geopolíticos bem próximos de seu território. Por isso, vê tentativas de mudança do status quo como uma “ameaça à sobrevivência do Estado”.

Não faltam exemplos de instabilidade em países às portas da Rússia. As nações do Cáucaso, como Armênia e Azerbaijão, a Ucrânia, na Europa Oriental, e os países da Ásia Central e até o Afeganistão, na encruzilhada com o Grande Oriente Médio, há décadas em guerra.

Quando a mudança é inevitável, há apenas uma condição: esses países não podem cruzar a linha da tentativa de integração com o Ocidente.

Se isso acontece, caso da Geórgia em 2003 e Ucrânia em 2004, a resposta é a intervenção em processos eleitorais e financiamento de grupos em defesa dos interesses de Moscou. Do contrário, Moscou se mostra aberta a trabalhar de forma pragmática com os novos governos.

Estabilidade centralizadora

As chamadas “revoluções das cores”, rosa para os georgianos e laranja para os ucranianos, são exemplos de mudanças vistas como ameaça pelo governo de Vladimir Putin. A Rússia atuou para que esses países não adotassem modelos de governo e sociedade ocidentalizados, explica.

O problema é que Moscou não foi capaz de oferecer uma alternativa a essas nações que não um governo autocrático e centralizador, alinhado a seus interesses. “A única estabilidade é da própria Rússia”, diz Rojansky. “E, claro, essa é estabilidade do governo de um homem só de Vladimir Putin”.

Isso porque o entendimento ocidental de que o curso natural do desenvolvimento passa por uma democracia liberal está longe de ser vigente na Rússia. Por ali, a compreensão é a de que um Estado deve ser forte, centralizado e determinado a garantir o interesse nacional.

Já em sua esfera de influência pós-soviética, os russos teriam uma visão definida pelo especialista como um “mercantilismo político”. Se há lucros, o método não precisa ser democrático, já que esta não seria a única saída “moralmente correta ou historicamente determinada” de destravar o desenvolvimento de um país.