Polícia culpa vítima de estupro coletivo e caso gera revolta no Paquistão

Investigador disse que mulher estuprada por grupo na frente dos filhos não deveria "estar sozinha à noite"
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“Ela deveria ter pensado melhor antes de viajar sozinha à noite”, foi a resposta de Umar Sheikh, investigador de polícia do Paquistão, quando questionado sobre o estupro coletivo de uma mulher na madrugada dessa sexta (11).

A vítima viajava com os dois filhos em uma rodovia de Lahore, no estado de Punjab e uma das maiores cidades do país, quando ficou sem combustível, informou o jornal “The Guardian”.

Enquanto esperava por ajuda, dois homens quebraram as janelas do automóvel e estupraram a mãe várias vezes na frente das crianças. Os criminosos ainda roubaram os pertences da vítima.

Sheikh afirmou que ninguém no Paquistão permitiria que irmãs e filhas viajassem sozinhas durante a madrugada. “Ela deveria ter tomado uma rodovia mais segura e ter certeza de que teria combustível suficiente para a viagem”, completou. A vítima reside na França.

Polícia culpa vítima de estupro coletivo e caso gera revolta no Paquistão
Meninas em vigília contra a violência no Paquistão em fevereiro de 2013 (Foto: ABC Open Producer/Daniel Schmidt)

O posicionamento do investigador gerou revolta e ativistas pediram pela renúncia de Sheikh. A ministra paquistanesa dos direitos humanos, Shireen Mazari, considerou a resposta inaceitável. “Nada pode racionalizar o crime de estupro”, disse.

No Twitter, o primeiro-ministro, Imran Khan, afirmou que acompanha o caso de perto e pediu pela prisão e condenação dos culpados “o mais rápido possível”. “Não podemos permitir essa brutalidade e bestialidade em nenhuma sociedade civilizada”, disse.

Dez agressões por dia

Até o momento, 15 pessoas foram presas por envolvimento no estupro. Nenhuma faz parte do grupo que atacou a vítima, disse a polícia à Associated Press.

“Esse [caso] é apenas a ponta do iceberg de crimes violentos cometidos contra mulheres e meninas que nunca são denunciados”, disse a ativista pelo fim da violência sexual no Paquistão Tahira Abdullah à Al-Jazeera.

Poucos dias antes, a cidade de Karachi, no sul do país, se indignou com o sequestro, estupro e assassinato de uma menina de cinco anos. Apenas na província de Punjab há registro de mais de dois mil casos de violência sexual em 2020. Em 111 delas, o relato é de estupro coletivo.

A média registrada pela Comissão de Direitos Humanos do Paquistão é 10 casos de violência de gênero por dia – desde agressão sexual a estupro de menores. “O estigma está na culpabilização da vítima”, disse o secretário-geral da comissão, Harris Khalique.

“Uma mulher é estuprada na frente de seus filhos e o chefe de política tem a ousadia de dizer que foi por que ela estava dirigindo sozinha à noite. Isso é inaceitável”, completou. A vítima pediu para não ter seu nome divulgado.

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