Europa corre para comprar ar-condicionado da China em meio ao calor extremo

Explosão nas importações de aparelhos chineses revela como as ondas de calor estão superando a capacidade de adaptação da Europa e reacende o debate sobre dependência industrial, saúde pública e mudanças climáticas

A Europa está comprando cada vez mais aparelhos de ar-condicionado fabricados na China. Mas essa corrida vai muito além do comércio internacional. Ela evidencia o que acontece quando as mudanças climáticas avançam mais rápido do que a capacidade de adaptação das políticas habitacionais, da infraestrutura pública e das estratégias industriais. As informações constam de um artigo do Asia Times.

Os números registrados neste verão ilustram esse cenário. As exportações chinesas de aparelhos de ar-condicionado para a União Europeia (UE) alcançaram US$ 3,76 bilhões no primeiro semestre de 2026, alta de 43,2% em relação ao mesmo período do ano anterior. Os modelos portáteis lideraram o crescimento, com avanço superior a 70%, impulsionados principalmente por fabricantes como Midea, Haier, Gree e Dreame.

(Foto: WikiCommons)

Por trás desse aumento existe uma realidade simples: apenas cerca de um em cada cinco lares europeus possui ar-condicionado. Isso evidencia o descompasso entre um planeta cada vez mais quente e um parque habitacional construído para enfrentar verões historicamente amenos.

A consequência já pode ser percebida em apartamentos, escolas, hospitais e estabelecimentos comerciais. Grande parte das residências europeias nunca foi projetada para suportar longos períodos de calor intenso. Além disso, edifícios históricos limitam alterações nas fachadas, muitos proprietários resistem às instalações permanentes, há escassez de técnicos especializados e, frequentemente, o custo da instalação supera o preço do próprio equipamento.

Nesse contexto, o crescimento da procura por aparelhos portáteis deixa de ser uma surpresa. Mais do que produtos acessíveis, eles representam uma solução prática para um problema específico enfrentado por milhões de europeus.

É justamente nesse ponto que o debate sobre a guerra comercial entre Europa e China se torna insuficiente. Bruxelas tem razões para se preocupar com sua capacidade industrial, os empregos locais, os subsídios estatais e a dependência de fornecedores estrangeiros.

O déficit comercial da União Europeia com a China cresceu 15%, atingindo 360 bilhões de euros no ano passado, e continuou aumentando ao longo de 2026. Nenhuma grande economia pode ignorar os riscos de depender excessivamente de fornecedores externos para produtos considerados estratégicos.

No entanto, o ar-condicionado torna essa discussão mais complexa. Embora seja um bem de consumo, transforma-se em infraestrutura essencial de saúde pública quando as temperaturas atingem níveis perigosos. Um aparelho instalado em um lar de idosos, em uma escola ou em um apartamento localizado no último andar pode evitar casos de desidratação, insolação e outras consequências potencialmente fatais.

Os riscos são concretos. A França registrou aproximadamente mil mortes adicionais relacionadas à atual onda de calor. Estimativas de pesquisadores também apontam que o verão histórico de 2022 provocou mais de 61 mil mortes associadas às altas temperaturas em toda a Europa. O calor extremo deixou de ser apenas um desconforto sazonal para se tornar um dos principais desafios de saúde pública do continente.

Diante desse cenário, a questão deixa de ser se a Europa deve ou não importar aparelhos chineses. O verdadeiro desafio consiste em construir um sistema de refrigeração que seja acessível, resiliente e compatível com as metas climáticas.

Isso exige separar três debates que frequentemente acabam misturados. O primeiro é garantir acesso imediato à refrigeração para populações vulneráveis. O segundo envolve o desenvolvimento de uma política industrial capaz de ampliar ou atrair produção e serviços de instalação. O terceiro passa pela criação de normas ambientais que impeçam que a solução de hoje se transforme no problema climático de amanhã.

Responder à crise apenas com restrições comerciais pode produzir o efeito contrário ao desejado. Tarifas podem ser justificadas em situações de concorrência desleal, mas barreiras amplas aos equipamentos de refrigeração funcionariam, na prática, como um imposto sobre as famílias mais vulneráveis às ondas de calor.

Ao mesmo tempo, os fabricantes chineses também deveriam evitar qualquer triunfalismo. O aumento das vendas durante uma emergência climática não demonstra a superioridade de um modelo econômico sobre outro. Apenas evidencia que todos os países precisam acelerar sua adaptação às mudanças do clima.

Uma alternativa seria a criação de um pacto internacional voltado à resiliência da refrigeração entre a Europa e os principais produtores asiáticos. Não seria necessário um grande tratado, mas sim uma estrutura baseada em padrões técnicos, transparência e produção compartilhada.

Nesse modelo, a Europa poderia estabelecer requisitos rigorosos para eficiência energética, uso de refrigerantes com baixo potencial de aquecimento global, facilidade de reparo e reciclagem dos equipamentos. Empresas chinesas, japonesas, sul-coreanas, turcas e europeias competiriam em igualdade de condições para atender a essas exigências.

A ampliação da montagem local, das joint ventures e das redes europeias de assistência técnica também reduziria a dependência externa sem ignorar a realidade das cadeias globais de suprimentos.

Mais importante ainda seria deixar de enxergar o ar-condicionado apenas como um produto e passar a tratá-lo como parte de um sistema de adaptação climática. A melhor estratégia não consiste simplesmente em vender mais aparelhos, mas em reduzir a necessidade deles sempre que possível e instalá-los onde forem realmente indispensáveis.

Isso significa investir em arborização urbana, áreas de sombra, telhados refletivos, edifícios públicos preparados para enfrentar o calor extremo e sistemas eficientes de alerta para ondas de calor. Também exige priorizar a modernização térmica de escolas, hospitais, residências antigas e instituições de longa permanência para idosos, além de adaptar as redes elétricas para suportar os picos de consumo registrados durante o verão.

Existe ainda um paradoxo inevitável. O ar-condicionado salva vidas durante eventos climáticos extremos. Porém, quando alimentado por eletricidade produzida a partir de combustíveis fósseis ou por equipamentos pouco eficientes, contribui para intensificar o próprio aquecimento global que aumenta sua demanda.

Esse paradoxo não justifica abrir mão da refrigeração. Pelo contrário. Reforça a necessidade de desenvolver tecnologias mais eficientes, combinando a experiência regulatória e de planejamento urbano da Europa com a capacidade industrial da Ásia.

No fim, um aparelho de ar-condicionado carrega uma mensagem muito maior do que sua função imediata. Ele mostra à Europa que a adaptação climática já não pode ser adiada. Mostra à China que liderança industrial também implica responsabilidade. E lembra aos formuladores de políticas públicas que a resiliência depende menos de discursos e mais de aspectos concretos, como códigos de construção, logística, disponibilidade de instaladores, eficiência energética, preços da eletricidade e manutenção dos equipamentos.

A atual onda de calor europeia não deveria servir apenas como mais um capítulo da disputa geopolítica entre grandes potências. Ela deve ser entendida como um alerta de que a crise climática exigirá dos países capacidade de cooperação, planejamento e adaptação.

A Europa não precisa abandonar os aparelhos de ar-condicionado chineses nem tornar-se dependente deles. Precisa aproveitar este momento para construir um sistema de refrigeração mais inteligente, capaz de proteger vidas, incentivar tecnologias mais limpas e utilizar o comércio internacional como instrumento de adaptação climática, e não apenas como campo de disputa econômica.

Em um planeta cada vez mais quente, a pergunta mais importante já não é quem dominará o mercado mundial de ar-condicionado. É quem conseguirá manter as pessoas protegidas do calor sem agravar ainda mais o aquecimento global.

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