A China está transformando a criação de peixes em Xinjiang, região autônoma do extremo oeste do país, em uma vitrine de desenvolvimento tecnológico e segurança alimentar. A iniciativa combina expansão da aquicultura, promoção comercial e propaganda estatal em uma área marcada por denúncias de violações de direitos humanos contra uigures e outras minorias predominantemente muçulmanas.
Uma investigação publicada na sexta-feira (9) pela revista TIME, examina como Beijing promove os chamados frutos do mar de Xinjiang para consumidores chineses e estrangeiros. O trabalho também aborda as suspeitas de fraude na rotulagem de peixes e as implicações das denúncias de trabalho forçado nas cadeias internacionais de fornecimento.

A região, distante dos oceanos e marcada por extensas áreas áridas, tornou-se um polo de criação de espécies aquáticas que normalmente são associadas a ambientes mais frios. A truta-arco-íris, por exemplo, é produzida em reservatórios abastecidos pelas águas do degelo das montanhas Tian Shan. Na publicidade estatal, a atividade aparece como demonstração da capacidade chinesa de superar limitações geográficas por meio da engenharia e da tecnologia.
De acordo com a agência estatal Xinhua, em reportagem de março de 2023, a criação de trutas em Xinjiang já movimentava mais de 100 milhões de yuans por ano em um dos polos produtivos da região. O setor integra uma estratégia mais ampla para ampliar a produção doméstica de alimentos e estimular a atividade econômica no oeste chinês.
O crescimento, entretanto, também colocou em evidência uma disputa sobre a identidade dos produtos. Em 2018, um programa da televisão estatal apresentou o salmão criado no interior do país como um avanço tecnológico. Consumidores questionaram se o peixe comercializado era realmente salmão ou truta-arco-íris vendida com uma denominação mais valorizada.
A controvérsia envolve tanto a transparência comercial quanto a segurança alimentar. A truta-arco-íris e o salmão do Atlântico são espécies distintas, embora possam apresentar semelhanças visuais e culinárias. A discussão sobre a rotulagem tornou-se um problema para uma campanha que procura associar os produtos de Xinjiang à qualidade, à modernização e à confiança dos consumidores.
Segurança alimentar e trabalho forçado
O principal problema, porém, ultrapassa a disputa sobre a origem e a denominação dos peixes. Xinjiang está no centro de denúncias internacionais de repressão contra a população uigur, incluindo detenções em massa, vigilância e transferência de trabalhadores para outras regiões da China. Organizações de direitos humanos e governos ocidentais apontam riscos de trabalho forçado associados a programas estatais de emprego e transferência de mão de obra.
Em agosto de 2026, o Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos incluiu a Xinjiang Tianyun Organic Agriculture na lista de entidades sujeitas à Lei de Prevenção do Trabalho Forçado Uigur (UFLPA). Segundo o relatório investigativo do Outlaw Ocean Project, a decisão está relacionada à obtenção de materiais provenientes de Xinjiang e à cooperação com programas de transferência de trabalhadores vinculados ao governo regional ou ao Corpo de Produção e Construção de Xinjiang.
A Tianyun é uma das empresas centrais da expansão da piscicultura na região. Segundo o levantamento, a companhia reivindica uma posição de destaque na produção chinesa de salmão e exporta para mais de uma dezena de países. Sua cadeia de fornecimento também alcançou empresas intermediárias que abastecem o mercado norte-americano.
O relatório aponta que produtos vinculados a essa cadeia chegaram à Sysco, uma das maiores distribuidoras de alimentos dos Estados Unidos, que fornece mercadorias a escolas públicas, prisões federais, bases militares e refeitórios do Congresso. A investigação não significa que todos os produtos de Xinjiang ou toda a produção da empresa sejam necessariamente resultado de trabalho forçado, mas expõe os riscos de rastreabilidade em cadeias internacionais de fornecimento.
A empresa nega as acusações. Em manifestação reproduzida no relatório, a Tianyun classificou as alegações de trabalho forçado sistemático como infundadas e afirmou cumprir a legislação trabalhista chinesa, além de proteger os direitos de seus funcionários. A companhia também contestou a legitimidade da legislação americana, que considera politicamente motivada.
A UFLPA, aprovada em 2021 e em vigor desde 2022, estabelece uma presunção de que mercadorias produzidas total ou parcialmente em Xinjiang estão vinculadas ao trabalho forçado, salvo quando os importadores conseguem cumprir os requisitos legais para afastar essa presunção. A medida amplia as exigências de comprovação da origem dos produtos e coloca sob pressão empresas que dependem de fornecedores da região.
Na União Europeia, o Regulamento sobre Produtos Fabricados com Trabalho Forçado também deverá proibir a comercialização desses produtos a partir de 14 de dezembro de 2027. A norma abrange mercadorias produzidas em qualquer país, não apenas na China.
Propaganda e projeção internacional
A promoção dos frutos do mar de Xinjiang também cumpre uma função política. O governo chinês apresenta a expansão da aquicultura como exemplo de desenvolvimento econômico em uma região historicamente marcada por tensões étnicas e políticas. A atividade é associada à geração de renda, à modernização da produção e à capacidade de transformar ambientes considerados pouco favoráveis à agricultura convencional.
Segundo o Outlaw Ocean Project, a produção aquícola de Xinjiang cresceu de forma expressiva desde 2017, quando a política de expansão da criação de peixes nas regiões ocidentais ganhou força. O projeto, conhecido como “Milagre Azul”, busca ampliar a produção de alimentos, fortalecer a autonomia do país e desenvolver atividades econômicas longe dos tradicionais polos costeiros.
A comunicação oficial transforma esse processo em uma narrativa de superação tecnológica. Imagens de reservatórios, instalações modernas e peixes criados em águas de degelo são utilizadas para apresentar Xinjiang como uma região produtiva e integrada ao desenvolvimento nacional. A estratégia também procura ampliar a aceitação dos produtos chineses no exterior.
Em 2023, a promoção dos frutos do mar de Xinjiang ganhou visibilidade nas redes sociais chinesas, com vídeos e publicações que destacavam a produção de peixes em áreas desérticas. A campanha coincidiu com a decisão do Japão de iniciar a liberação de água tratada da usina nuclear de Fukushima no Oceano Pacífico, em agosto daquele ano. Pequim condenou a medida e proibiu as importações de produtos aquáticos japoneses.
Nesse contexto, a valorização dos peixes produzidos no interior chinês oferecia uma alternativa comercial e política. Os produtos podiam ser apresentados como uma opção doméstica, moderna e segura, em contraste com as preocupações levantadas pelo governo chinês sobre os alimentos provenientes do Japão.
A investigação de Urbina também examina a atuação de influenciadores estrangeiros convidados a visitar instalações produtivas em Xinjiang. Os vídeos resultantes frequentemente destacam o desenvolvimento econômico e os relatos positivos de moradores, enquanto oferecem uma visão limitada das denúncias sobre a situação dos direitos humanos na região.
A disputa, portanto, não se restringe à venda de peixes. Envolve a tentativa de Pequim de consolidar uma imagem internacional de eficiência tecnológica e desenvolvimento econômico, ao mesmo tempo que enfrenta o escrutínio de governos e organizações sobre as condições de trabalho e a transparência de suas cadeias produtivas.
A expansão da aquicultura em Xinjiang demonstra que a produção de alimentos pode cumprir funções econômicas e estratégicas simultaneamente. Para a China, os peixes criados no interior ajudam a diversificar a oferta alimentar e a estimular a atividade industrial em regiões afastadas dos principais mercados costeiros. Para os países importadores, o desafio é verificar a origem dos produtos e assegurar que a expansão comercial não esteja associada a violações de direitos trabalhistas.
O resultado dessa disputa dependerá tanto da capacidade chinesa de ampliar a produção quanto da disposição dos mercados internacionais de exigir rastreabilidade e garantias verificáveis sobre as condições de trabalho. A promoção dos frutos do mar de Xinjiang pode ampliar sua presença no comércio global, mas a construção de uma imagem positiva não elimina as questões que cercam sua cadeia de fornecimento.